All for Joomla All for Webmasters

A Ao vivo

Previous Next

Jazz na Fábrica - SESC Pompeia (24 a 27-08-17)

User Rating: 0 / 5

Star InactiveStar InactiveStar InactiveStar InactiveStar Inactive
 

Um dos festivais mais aguardados do já interessante calendário do SESC Pompeia, o Jazz na Fábrica é seguramente um dos momentos mais aguardados do ano para muitos amantes do gênero e frequentadores de um dos melhores espaços para shows na sempre caótica São Paulo.

Notável por aproximar vertentes até então díspares do universo do jazz, o evento é concebido com uma curadoria invejável, trazendo ao Brasil artistas que impressionam pela versatilidade e que em situações normais jamais imaginariam contar com um público no país. Além disso, abre espaço para artistas nacionais em apresentações muitas vezes gratuitas, realizando um trabalho que vai muito além do palco.

O Passagem de Som acompanhou 5 dessas apresentações entre os dias 24 e 27 de junho e teve a chance de conferir o jazz caminhando ao lado do funk e do Rhythm and blues com Roy Hargrove (24), da música flamenca, com a dupla Chicuelo – Mezquida (25), da experimentação com a lendária Annette Peacock (26), do afrobeat de Pat Thomas (27) e até mesmo da fusão de ritmos da sensacional Debo Band, ambas no último dia de festival. Uma viagem pelo mundo da música digna da expectativa gerada por um dos eventos mais bem elaborados no país.

Um dos grandes nomes dessa geração, Roy Hargrove é o artista perfeito para realizar essa transição entre o passado e presente do jazz. Descolado, o trompetista e trombonista americano é velho conhecido do público brasileiro. Acompanhado do quarteto formado por Quincy Phillips (bateria), Ameen Sultan Saleem (baixo), Tadataka Unno (piano) e Justin Jay Robinson (sax), Roy conta também com a vocalista italiana Roberta Gambarini, que apimenta com rara eficiência suas já ótimas apresentações.

Com mais de duas dezenas de álbuns lançados, ver Roy Hargrove ao vivo é assumir para si a mesma postura de flexibilidade propagada pelo festival, já que desde vertentes mais duras como o hard bop e o post bop caminhando lado a lado ao “quente” jazz latino em performances onde o bandleader frequentemente dá espaço aos seus músicos, especialmente Jay Robinson, que por vezes rouba a cena em performances tão impressionantes quanto Roy.

Conversando pouco e engatando uma faixa atrás da outra, o primeiro show que vimos no Jazz na Fábrica foi também o que mais mergulhou nas vertentes do jazz soando extremamente atual. Alternando sua performance entre músico e vocalista, Roy soa sereno ao lado da virtuosa Roberta Gambarini, garantindo um show que certamente agradou aos menos adeptos do jazz, reforçando o papel do músico americano em tempos atuais.

O dia seguinte contou com uma das apresentações que se desenhavam mais interessantes em todo o line up. Ao lado do percussionista Jacobo Sánchez, Joan Gómez Chicuelo e Victor Mezquida trouxeram ao país pela primeira vez o encontro entre o jazz e a música flamenca.

Vertente pouco explorada pelo público brasileiro, o show foi seguramente uma das mais gratas surpresas de todo o festival. Não se tratava só de música, mas de um sentimento que ao vivo ganhava forma em um compasso quase assustador. Não eram mais três músicos, mas uma única engrenagem executada com uma maestria sem precedentes.

Divulgando a parceria Chicuelo – Mezquida, que resultou no álbum Conexión, lançado esse ano, o trio ao vivo executou faixas do disco em uma apresentação impressionante. Músico de renome, Chicuelo é o motor por trás do show, ditando o ritmo enquanto dedilhava seu violão de uma forma quase incompreensível aos olhos humanos. Já Victor Mezquida, considerado um dos pianistas mais elogiados da atualidade, fez do jazz o aporte para o flamenco e para tudo o que desejasse. Isso ficou nítido quando o pianista chegou a improvisar Asa Branca, de Luiz Gonzaga, durante uma das faixas do show. Menos falado, Jacobo Sánchez deu outro show à parte e mostrou como a percussão é o grande coração da música flamenca.

Entre faixas como Chicuelina e Ao Sol, o trio explorou os caminhos do flamenco em todas as suas formas, especialmente em faixas como Lenta, andante, trepidante, a melhor do show. Ovacionado, o trio com certeza escreveu seu nome na história do festival em uma espécie de batismo de fogo, já que lidava com a incerteza do público desde o início.

Estabelecendo uma “Cónexion” ainda maior com a música e cultura brasileira, consolidou esse elo de tal forma que ao fim do show todo o público praticamente devorou o merchandising trazido pelo trio.

No sábado era a vez de Annette Peacock. Uma das atrações mais experientes e aguardadas do evento, a artista americana veio ao Brasil com um currículo assustador. Pioneira no uso de sintetizadores, Annette trabalhou com David Bowie, Brian Eno e tantos outros artistas que só pelo release levaria ao teatro do SESC Pompeia sua capacidade completa, algo que naturalmente ocorreu no sábado.

Responsável por trabalhar com o primeiro modelo moog da história, Annette subiu ao palco ao lado de Roger Turner, com quem já havia trabalhado no álbum I Have No Feelings (1989), para uma apresentação antagônica, um misto de show e intervenção artística, o que claramente acabou desagradando parte do público à medida em que era deliciado por outros.

Iluminada apenas por um pequeno ponto de luz, o sombrio palco parecia trazer um encontro entre Wayne Shorter e Massive Attack, Goldfrapp e Archie Sheep, tamanha dose de experimentalismo executado pela dupla em uma apresentação de uma hora. Com um doce vocal, a artista americana cantou faixas do já citado I Have No Feelings com uma capacidade até certo ponto de irritante em fazer dessa uma música algo atual. Algo normal até o momento em que a ficha caía e percebia-se que o disco fora lançado há quase trinta anos. Annette Peacock foi desafiadora em 2017 da mesma forma que já era há meio século atrás.

O último dia de Jazz na Fábrica trouxe também uma das apresentações mais aguardadas, com Pat Thomas, The Voice of Africa, se apresentando de forma gratuita em um dia de sol. Mais perfeito impossível.

Acompanhado da Kwashibu Area Band, que já teve em sua frente Tony Allen, diretor artístico de Fela Kuti, o grupo trouxe o afrobeat para um público que rapidamente foi contagiado pela magia dos ritmos africanos. Explorando faixas do álbum, Pat Thomas mostrou porque é um dos grandes nomes do gênero após a partida de seu maior expoente e conseguiu mostrar que a música não tem idioma em um dos shows mais intensos do festival.

Com faixas como Brebrebre e Me Ho Asem, o músico nigeriano conversou com o público e mostrou como todo o trabalho realizado pelo grupo ao longo de décadas refletiu na cultura baiana, especialmente o trabalho de percussão.

Foi intenso, foi dançante e foi histórico. Com quase 1h30 de show, a noite caiu na última noite do festival com a sensação de trabalho realizado, mas ainda havia tempo para mais uma apresentação memorável, da Debo Band, banda americana que pode se orgulhar como poucos de ter um ritmo tão indefinido.

Formada por Danny Mekonnen, artista de origem etíope nascido no Sudão e criado nos Estados Unidos, e pelo franco-etíope Bruck Tesfaye, cujo vocal em amharic (uma das línguas faladasna Etiópia), a Debo Band soa tão cigana no palco que só nos resta agradecer aos destino por ter unido músicos tão diferentes em uma música tão impressionante.

Em um show que parecia transportar para o palco a energia de alguém como Trombone Shorty com a técnica da Preservation Hall e a vitalidade de uma Brass Band, a Debo Band soa tão intensa ao vivo que fica difícil lembrar que trata-se de um evento de jazz.

O Jazz na Fábrica se encerrou como encerra todos os anos. Com bom público e um respaldo que só cresce. Que venha o Jazz na Fábrica 2018!

A música passa por aqui.

Email:

contato@revistasom.com.br

Fone:

11 98022.7441

Mídias Sociais