All for Joomla All for Webmasters

A Ao vivo

Steven Wilson - Teatro Bradesco (20.05.13)

Star InactiveStar InactiveStar InactiveStar InactiveStar Inactive
 

Quais ingredientes são necessários para um grande show? Interação com o público? Técnica? Ou um setlist certeiro, feito sob medida para os fãs? Algumas dessas perguntas foram respondidas na noite da última segunda-feira (20) quando Steven Wilson, uma das mentes mais brilhantes da atualidade, retornou ao Brasil para uma apresentação única dentro da turnê de seu mais recente trabalho solo, The Raven That Refused to Sing and Other Stories, lançado em 2013.

Com uma produção milimetricamente desenhada para a execução de todas as faixas de seu novo álbum, além de um repertório espalhado por seus outros dois discos, Steven poderia ter entrado em campo com jogo ganho caso sua personalidade não acabasse se sobrepondo ao seu talento em parte do show, cometendo alguns equívocos que mostraram que nem sempre ser um exímio músico é capaz de tornar alguém referência de uma vertente musical.

Efetivamente no palco a partir 21h30 (após uma introdução de quase 30 minutos), Steven surgiu com destaque após a entrada de seu super time formado por Guthrie Govan (guitarra), Adam Holzman (teclado), Theo Travis (flauta/sax), Nick Beggs (baixo/ stick) e Chad Wackerman (bateria).

O início com Luminol, faixa de abertura de seu terceiro álbum solo, trouxe a primeira manifestação desnecessária de Steven em relação à sua banda, quando interrompeu a execução da música após uma verdadeira viagem de quase dez minutos para ironizar um erro do baterista Chad Wackerman. Diante da embaraçosa situação a banda refez a música novamente, dessa vez sem erros, ainda que fosse difícil para alguém do público atentar algum deslize dentro de uma melodia tão complexa.

A divulgação de The Raven That Refused to Sing and Other Stories teve sequência com Drive Home e The Pin Drop, trabalho realizado com perfeição por uma banda que chama a atenção por sua concentração aos olhares do chefe, realizando seu trabalho no mais alto padrão técnico e conduzindo o público por melodias densas em um volume absurdamente alto, provavelmente o mais intenso realizado na história do teatro.

Postcard, extraída de seu segundo trabalho solo, Grace for Drowning, foi a primeira a surgir no repertório e empolgar o público de forma mais efetiva. Do mesmo álbum também veio a boa Deform to Form a Star, que encerrou a primeira parte do show após a nova The Holy Drinker.

Conversando bastante, o músico inglês não tardou a convocar o público para a frente do palco, sendo prontamente atendido e causando mais um dos equívocos da apresentação, realizada com som quadridônico (onde alguns sons vêm de trás do público) e um trabalho multimídia comprometido pela iluminação do palco, impedindo uma visualização mais nítida do telão posicionado atrás da banda.

Ao realizar a introdução de The Watchmaker, uma das melhores faixas do novo trabalho e que ao vivo ganhou uma força ainda maior, um enorme tapume foi posicionado a frente do palco, cobrindo parcialmente a banda enquanto imagens eram projetadas à medida que a música se desenvolvia, um verdadeiro espetáculo multimídia comprometido para quem se posicionou rapidamente a frente do vocalista, muito mais solto a essa altura do show, que embalou de vez quando sua discografia solo passou a ser melhor explorada.

Index e No Part Of Me, de Grace for Drowning, e Insurgents e Harmony Korine, de seu homônimo álbum de estreia, foram responsáveis pelos melhores momentos do show, que já ultrapassava a barreira de 2h. Já na reta final, a longa viagem de Raider II e The Raven That Refused to Sing, faixa que encerra o último lançamento de Steven, deram números finais a uma apresentação impecável tecnicamente, mas bastante fria e com pouca participação do público. O bis com Radioactive Toy, hoje uma lembrança distante de Steven e seus tempos de Porcupine Tree encerrou de forma definitiva um show que beirava meia-noite, totalizando quase 3h de duração.

De forma geral, é impossível encontrar defeitos técnicos na apresentação de Steven Wilson, mas isso acabou não caracterizando um grande show. Ficou a sensação de que alguém com tamanha genialidade possa alcançar um resultado melhor ao conduzir um show de rock – como o próprio já havia afirmado – em sintonia com o público, muitas vezes inibido por seu próprio comportamento.

Ao sepultar de vez sua história com o Porcupine Tree, Steven frustra quem ainda tenta vincular seu talento a um passado que não vai mais existir, assim como exala uma soberba descomunal ao atrair para si próprio, no palco, a atenção que deveria ser dividida com músicos de talento ímpar, dispostos a encarar até mesmo as imperfeições de seu chefe, a ponto de serem corrigidos ao vivo sem o menor abalo emocional, e a agirem quase como robôs de um engenhoso cientista.

A cada novo lançamento fica difícil encontrar uma imperfeição no trabalho de Steven Wilson, assim como em suas execuções ao vivo, mas talvez seja exatamente por viver sua obra de uma forma tão particular, onde tudo gira em torno de sua figura, que more o perigo de sua genialidade ser corrompida pela implacável ação do tempo, que pode se tornar um grande inimigo caso não encontre novamente em sua carreira a harmonia de grupos que tiveram no coletivo uma força muito maior que sua técnica, transformando suas apresentações em sinônimo de verdadeiras catarses na história da música.

A música passa por aqui.

Email:

contato@revistasom.com.br

Fone:

11 98022.7441

Mídias Sociais