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Bob Dylan - Credicard Hall/SP (21.04.12)

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Escrever sobre uma apresentação de Bob Dylan não é uma tarefa fácil. Talvez pelo lado fã ou nossa própria insignificância perante o tamanho de sua obra, falar sobre elementos como qualidade ou a escolha do repertório de seu show é relatar a história viva da música, representada por um nome cujas composições atravessaram décadas de uma forma tão sólida, que torna impossível ao público passar ileso a um sentimento de contemplação, digna de um Deus ou algo parecido.

Nem mesmo os altos valores foram capazes de afastar o público do velho bardo em São Paulo, onde se apresentou por duas noites com ausência total de imprensa, atitude que pode até ter incomodado alguns, mas foi crucial para uma proximidade maior do artista com seu verdadeiros fãs, que lotaram a casa muito antes do início pontual da apresentação no sábado (21).

O show de Dylan não tem segredos ou clichês, tudo é simples como deve ser e é exatamente por isso que a comoção impressiona. Desde o início, com Leopard-Skin Pill-Box Hat, faixa do álbum Blonde on Blonde (1966), o incomum silêncio do público colaborou para o andamento da apresentação, que emocionou pra valer com Don't Think Twice, It's All Right, de The Freewheelin' Bob Dylan (1962).

Muito se falou da voz de Dylan antes de sua turnê e até mesmo da roupagem que suas músicas vem ganhando ao longo dos últimos anos, mas isso está longe da realidade criada em torno do que realmente são seus shows. O olhar desafiador do bardo pode realmente colocar em “parafuso” o fã mais distante da amplidão de sua obra, mas aqueles que acompanham sua carreira sabem do tamanho da emoção que é ouvir faixas como Things Have Changed, Tangled Up In Blue ou a mais recente Make You Feel My Love.

Durante quase duas horas, Dylan toca teclado, gaita e até empunha sua guitarra, mas nem de longe lembra a figura de um frontman que ignora sua banda. Acompanhado de Tony Garnier (baixo), Charlie Sexton (guitarra), Stu Kimball (guitarra), George Receli (bateria) e o versátil Donny Heron (violino, mandolin e trompete), Bob Dylan traz para o palco a atmosfera de uma época onde a mensagem de uma música parece entrar diretamente no coração de quem ouve e é justamente por isso que a contemplação ultrapassa a barreira da racionalidade. Existe um ar de gratidão que exala do público frente a um ídolo intocável, que se mantém fisicamente distante em seu palco, mas dentro de cada um dos presentes.

Em uma das sequências mais impactantes do show, a belíssima A Hard Rain's A-Gonna Fall, de The Freewheelin' Bob Dylan (1962), antecedeu nada menos que o eterno clássico Highway 61 Revisited e a não menos importante Love SickTime Out of Mind (1997) – uma das surpresas do repertório, sempre imprevisível.

Já em sua reta final, Dylan ainda trouxe Ballad Of A Thin Man e Like A Rolling Stone, ambas de 1965, gravados no seminal Highway 61 Revisited, um dos muitos álbuns emblemáticos de sua carreira, dando seu primeiro adeus diante de uma verdadeira catarse.

Ainda haveria tempo para Blowin' In The Wind, diante de um público extasiado e satisfeito. Obviamente haveriam ao menos 100, 200 músicas que poderiam ser inseridas no setlist para satisfazer a todos, mas é impossível negar o fato de que o show havia beirado a perfeição. E como um ídolo distante, Dylan agradeceu timidamente e virou as costas pela última vez.

Assim como foi dito no início, escrever sobre um show de Bob Dylan não é fácil. Escrever sobre música é muito mais fácil do que escrever sobre sentimentos, e diante de alguém como o velho bardo, nada do que foi escrito acima chegará próximo do que realmente se sentiu ao longo de uma apresentação inesquecível, seja da luz baixa ao estilo The Band em The Last Waltz, passando pelo feliz repertório e a força de cada composição, poucas palavras retratam isso de forma tão verdadeira. O mundo fica um pouco mais cinza quando Dylan vira as costas e se vai, mas essa é sua mensagem, cabe a nós entendê-la e lutar para que o lugar ganhe um pouco mais de cor até uma nova volta.

A música passa por aqui.

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