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Morrissey - Espaço das Américas/SP (11.03.12)

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Ver um mito da música não é algo comum para o público brasileiro. Ainda que o país tenha se tornado rota das maiores turnês da atualidade, alguns deles surgem pelo país uma vez a cada década ou até menos que isso, mas nem de longe essa distância diminui a idolatria por eles. Isso foi comprovado no encerramento da turnê do ex-vocalista dos Smiths, Morrissey, em solo paulistano no último domingo (11).

Ingressos esgotados, mais de uma década de espera e uma noite chuvosa de domingo, ingredientes que por si só já tornariam a noite histórica no recém-reformado Espaço das Américas, na Barra Funda. A eliminação de pontos cegos na casa, a retirada de algumas colunas e o belo hall da entrada trouxeram glamour a um espaço que há algum tempo havia sido descartado para grandes apresentações.

A abertura do show foi realizada pela performática Kristeen Young, porém, sem a presença (ao menos visual) de seu baterista Jeff White. A pupila de Morrissey, Tony Visconti e David Bowie trouxe ao Brasil músicas de seus cinco álbuns sem dar tanta importância para o elogiado Music for Strippers, Hookers, and the Odd On-Looker, lançado em 2009. Explosiva, Kristeen fez um set de pouco menos de dez músicas e ganhou o respeito do público. Sua performance ora lembrava PJ Harvey, em alguns outros parecia invocar tanto Bjork como a sensibilidade de Tori Amos. Conforme disse em entrevista, a cantora parece canalizar tudo isso em si própria para ser autêntica.

Entre os destaques, Fantastic Failure e V The Volcanic, faixas do recém-lançado EP da cantora; Touch Tongues, do álbum Breasticles (2003) – responsável por catapultar sua carreira no início da década – e Halfway Across the Atlantic Ocean, de seu último álbum de estúdio, tiveram bom resultado depois de uma curta e eficiente abertura. O mundo de fantasia quase esquizofrênica de Kristeen Young funcionou diante de um público afoito pela atração principal, justificando a aposta dos produtores em escalá-la diante de tanta expectativa.

O telão exibindo vídeos escolhidos cuidadosamente por Morrissey já eram o suficiente para aumentar a euforia no lotado Espaço das Américas. E foi pontualmente às 21h que um elegante vocalista, cercado por seus músicos, adentrou o palco para delírio completo.

Com toda elegância que o consagrou, Morrissey agradeceu a reverência e deu início ao show com First Of The Gang To Die, faixa do ótimo You Are the Quarry, lançado em 2004 e considerado um dos melhores discos da década. Com seus gestos sendo comemorados a cada segundo em que via o público cantar sua música, Morrisseu dava exatamente o que todos queriam, uma performance que fizesse jus ao mito criado em torno de sua imagem.

Em seu início ainda vieram You Have Killed Me, do álbum Ringleader of the Tormentors (2006), Black Cloud e When Last I Spoke to Carol, ambas de Years of Refusal (2009). A sequência de faixas criadas na última década já dava sinais claros de que Morrissey não olharia tanto para seu passado a ponto de criar uma apresentação nostálgica. Contando com o entrosamento de sua atual banda, o cantor deixava claro que há tempos não quer ser visto somente como o ex-vocalista dos Smiths.

Em um clima bem mais morno, Morrissey dançava, agradecia e se esforçava para falar em português. Foi com Alma Matters, faixa de Maladjusted (1997), que o show voltou a esquentar. Sem renegar seu passado, o cantor britânico finalmente deu o que boa parte do público queria: Smiths. Still III, faixa do primeiro álbum da banda, em 1984, foi um dos momentos mais comoventes da noite e veio acompanhada de Everyday is Like Sunday, de seu primeiro e consagrado álbum solo, Viva Hate (1988).

Cada vez mais solto e interagindo com o público, Morrissey só não esbanjava mais simpatia e interação porque, a cada vez que se aproximava da grade do show, um verdadeiro tsunami acontecia na pista. Faixas como Speedway, do álbum Vauxhall and I (1994), You're The One For Me, Fatty de Your Arsenal (1992) e I Will See You In Far-Off Places de Ringleader of the Tormentors (2006) davam aos fãs de longa data a certeza de um setlist muito bem elaborado, contemplando suas carreira-solo, enquanto parte do público apenas acompanhava os movimentos do vocalista.

Assim como no primeiro momento, foi novamente com Smiths que o show voltou a esquentar, Meat is Murder (do álbum homônimo de 1985) e seu polêmico vídeo com animais sendo sacrificados, que o discurso polêmico de Morrissey é levado a um patamar ainda maior no show, que já havia contado com críticas do músico à visita do Príncipe Harry ao Brasil.

Ouija Board, Ouija Board, faixa presente somente na primeira compilação de Morrissey, Bona Brag (1990), foi responsável por consolidar a carreira solo de Morrissey nos Estados Unidos, porém pouco conhecida do público brasileiro, acabou sendo apenas acompanhada. Mas seria esse o último momento de contemplação de parte do público, que viu uma verdadeira avalanche de clássicos na sequência.

A catarse teria início com outra canção dos Smiths, I Know It's Over, faixa do seminal The Queen is Dead (1986). A interpretação de Let Me Kiss You, de You Are the Quarry, sendo finalizada com o vocalista jogando sua camisa para o público foi o estopim para o maior momento do show, quando Morrissey se entregou ao fanatismo de seu público durante a execução de There Is A Light That Never Goes Out, também de The Queen is Dead (1986).

Enquanto lágrimas e gritos tomavam conta do Espaço das Américas, a bela I'm Throwing My Arms Around Paris (Years of Refusal, 2009) dava fôlego para dois verdadeiros presentes da carreira dos Smiths, Please, Please, Please Let Me Get What I Want e uma versão pesadíssima de How Soon is Now, faixa que praticamente define o gosto de toda uma geração. Era a hora de Morrissey dar adeus pela primeira vez…

Coberto de aplausos, lágrimas e uma euforia quase descomunal, o cantor britânico ainda encerraria a apresentação com a apropriada One Day Goodbye Will Be Farewell, também de Years of Refusal, 2009, álbum que mais trouxe faixas ao show.

Como um verdadeiro mito, Morrissey não fez cerimônia ao se despedir, sua missão havia sido cumprida e, por mais que o público ansiasse por mais canções dos Smiths, era impossível não sair satisfeito, ainda que parte do show acabasse por se tornar distante do público.

Da mesma forma como foi dito no início, o mito do ex-vocalista dos Smiths rompe as barreiras da música, seja com seu jeito sob o palco ou seus discursos. Tudo estava lá e é por isso que seu legado se tornou um dos maiores da história, entre uma discussão ou outra sobre suas opiniões e escolha de músicas, o verdadeiro Morrissey estavá lá e deu tudo o que o público mais procurava: sinceridade.

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