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Gruff Rhys - Studio SP/SP (08.03.12)

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Em inglês, o verbo “to play” pode ter o sentido de “brincar” ou “tocar música”. Gruff Rhys, vocalista da banda alternativa Super Furry Animals, veio do País de Gales ao Brasil com seu trabalho solo e mostrou que as fronteiras entre os dois significados do verbo nem sempre são tão nítidas.

Gruff já lançou 13 discos com o Super Furry Animals, mas não toca nenhuma música da banda em seus shows solo. Os setlists se compõem predominantemente de faixas dos três discos solo Yr Atal Genhedlaeth, Candylion e Hotel Shampoo, este último lançado em 2011.

A turnê brasileira incluiu três shows, dois em São Paulo (dias 07 e 08 de março) e um em Curitiba (dia 10). No dia 07, Gruff Rhys dividiu o palco com John Ulhoa e Fernanda Takai do Pato Fu. Os três já haviam se conhecido em Londres, mas nunca haviam se apresentado juntos. No dia 08, as participações especiais incluíram o trompetista Guizado e Tony da Gatorra. Tony e Rhys gravaram juntos o disco The Terror of Cosmic Loneliness e já haviam tocado juntos outras vezes.

Sentado a uma mesa com dois ou três sintetizadores, um tecladinho de brinquedo, um metrônomo, um smartphone, uma vitrola e alguns aparelhos de efeitos de voz, Gruff parecia uma criança depois do Natal, mostrando os brinquedos que tem. A cada aparato novo que ia usar, levantava um cartaz onde se lia “aplauso”. Mas eis o apelo e o charme do underground. Um sujeito tímido e desengonçado pode colocar um disco com sons de pássaros para rodar, começar a dedilhar o violão e a cantar doçuras como Sophie Softly, do disco Hotel Shampoo, e de repente acontece a mágica. Uma experiência única e íntima de cumplicidade entre artista e fã, algo impossível de se viver num grande show de estádio, por exemplo.

Foi o que aconteceu na primeira parte do show do cantor no dia 08 de março. Alternando canções em galês com faixas mais conhecidas de seus dois últimos trabalhos, Gruff Rhys deu novas e inusitadas roupagens a faixas como Rubble Rubble e Shark Ridden Waters, de Hotel Shampoo, ou Candylion e Cycle of Violence, do álbum Candylion. Guizado quebrou o clima meio acústico do show com o trompete na animada Sensations in the Dark, também do último disco de Rhys.

O cantor, então, anunciou que ia tocar um de seus lados B, e começou a sobrepor diversos sons da parafernália que trouxe enquanto Guizado tocava notas soltas em uma teclado e no trompete. E aí a linha entre o “tocar” e o “brincar” foi cruzada. Porque, sim, é possível juntar alhos com bugalhos em música, mas o que amarra tudo é a melodia. O que acontecia ali era só uma brincadeira com som. O público coçava o queixo, ia para o bar, ia para casa. Existe um limite até onde se pode levar a plateia, mesmo em um show alternativo. Uma jam experimental dissonante em cima de um lado B do projeto solo de uma banda alternativa galesa é demais.

No bis, Gruff chamou também Tony da Gatorra para mostrar os sons que fizeram juntos. A gatorra é um sintetizador artesanal e forma de guitarra que produz uma batida eletrônica e uns quatro sons diferentes. Tony é um decalque deslocado da era dos hippies que faz música de protesto. Uma figura que resvala para um terreno onde é difícil levar a música a sério.

É uma pena que um artista como Gruff Rhys, que já veio quatro vezes ao Brasil, gosta da nossa música, tem contato com vários artistas daqui e já teve um disco produzido por um brasileiro (Mário Caldato Junior) conheça tão pouco o público brasileiro. Talvez seja um mal que assola toda a música alternativa: o de achar que qualquer barulho vai ser aplaudido. Mas não é todo mundo que topa qualquer brincadeira.

A música passa por aqui.

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