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Entrevista BRENO RUIZ

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Descrever o trabalho de Breno Ruiz é algo que enche os olhos. Não se trata simplesmente de um pianista que transita entre o erudito e o popular. Muito menos de um pesquisador que devora livros buscando o isolamento. Dono do lindíssimo Cantilenas Brasileiras, seu primeiro álbum na carreira, o artista nascido no interior de São Paulo apresenta um outro patamar da música brasileira em um disco que exala sentimentos.

Respaldado por grandes nomes como Paulo Cesar Pinheiro, Mônica Salmaso e Renato Braz, Breno simboliza o que de mais puro existe na música atual. Não se trata de pretenciosismo, mas da sinceridade e cumplicidade que sua formação – de caráter e musical – dão ao seu trabalho.

Falamos com Breno sobre tudo isso. Sua formação, a chance de ter se apresentado no ótimo Auditório Ibirapuera, sobre a música atual, a tecnologia e diversos outros assuntos em uma bela entrevista.

A apresentação realizada no Auditório Ibirapuera e os espaços para shows no Brasil
Breno Ruiz: O Auditório é, de fato, um espaço incrível, e uma referência para além da cidade, eu acho. É sempre um privilégio poder fazer música num palco que tem acolhido artistas e momentos tão importantes, da cena nacional e internacional. É um lugar onde tive a oportunidade de assistir uma boa parte dos artistas a quem admiro... Só isso já é uma história à parte... A despeito disso, a expectativa é a de fazer o melhor trabalho possível, independente do palco onde vou tocar. Tenho uma relação de respeito profundo com meu ofício e meu comprometimento é com ele, sempre. Com a música que faço. E penso que essa é a melhor maneira de me relacionar com as pessoas que estão ali pra ouvir, também. Costumo brincar que considero meu trabalho aquele que realizo na sala da minha casa, quando estou compondo. Gosto dessa coisa mais intimista, mais informal (e nem por isso menos séria). A expectativa que tenho é a de levar pro palco essa sensação, esse sabor, da melhor maneira possível.

Cantilenas Brasileiras e o distanciamento do Brasil com suas raízes
Breno Ruiz: Bom, vou falar das minhas impressões, apenas minhas impressões. Particularmente, não acho que o Brasil esteja perdendo o elo com suas raízes. O Brasil que perdeu seu elo é o Brasil que consome o que a grande mídia oferece. Esse recorte do Brasil é um recorte que já perdeu sua identidade ou que está em vias de perde-la. Entretanto, por maior que seja, ainda é um recorte.  Entendo que quando você se refere ao Brasil, de certa forma, é justamente a esse Brasil que se refere, afinal, antigamente esses gêneros mais ancestrais tinham espaço nos grandes veículos de comunicação. Todavia, acho muito importante falar daquilo que dá certo e não, apenas, daquilo que não deu certo, como quase todos nós fazemos no cotidiano. Acho necessário reforçarmos os exemplos positivos pra que eles cheguem à consciência das pessoas, pra que as pessoas tomem consciência de que eles existem e, quem sabe, um dia, eles voltem a ocupar seu lugar de origem.

Há trabalhos importantíssimos em escolas de música, como o Conservatório de Tatuí, valorizando profundamente a linguagem da música brasileira, a Escola Portátil, com células em vários cantos do mundo, a própria escola do Auditório, enfim. Isso pra não falar do sem número de artistas que trabalham anonimamente, que não são e nunca serão conhecidos, mas que trabalham pra que essa linguagem não morra, não se perca. Eu mesmo, venho de uma cidade de interior, onde ainda se cultiva seresta, catira e moda de viola. Tanto isso é verdadeiro que, se não fosse assim, a música que faço não existiria, talvez se tornasse uma música outra. E isso responde sua pergunta.

No meu caso, não houve pesquisa nenhuma. Sou um compositor intuitivo; estudei piano, um pouco de erudito e um tanto de popular, mas não sou pianista, pianista... Sou um compositor intuitivo. Quando eu tinha meus 15, 16 anos e ouvi do Paulo Cesar Pinheiro e da Luciana Rabelo que o que eu estava compondo era um Lundu (N.E.: base rítmica de natureza africana e brasileira, criada a partir dos batuques dos escravos bantos trazidos de Angola), tomei aquilo com espanto. Minha intuição, certamente, tem origem nas coisas que ouvi, mas nunca tinha ouvido um lundu. Apesar disso, muitos elementos presentes mesmo nesse lundu estavam presentes em outras canções que acessei nalguma roda de som da minha terra. Quem frequenta rodas de som, bem sabe que há uma efervescência criativa que preserva o que há de mais fundamental em nossa música. Efervescência atípica, comparada com outros momentos da história. Acho, ainda, que a falta de conexão com as raízes das nossa cultura é  um problema relacionado ao nosso momento histórico, ao Zeitgeist atual (o “espírito do tempo”) e ao fenômeno da globalização. E também não acredito que seja um problema exclusivo do Brasil. Mas, enfim, “pão ou pães é questão de opiniães” (risos).

O distanciamento do erudito com o público jovem
Breno Ruiz: Essa pergunta, pra mim, é a extensão natural da anterior. E a resposta segue em continuação. Nos últimos 20 ou 30 anos, houve um movimento das grandes multinacionais, das gravadoras, dos grandes veículos de comunicação, que impôs deliberadamente aquilo que pretendiam como mainstream.

Música, supostamente, de “fácil digestão”, com conteúdo que pode ser absorvido e reproduzido por quem consome de modo automático e acrítico. Os maiores produtores do mundo da música comercial, que toca na rádio e na TV, têm fórmulas prontas: o mote da letra (do refrão) precisa aparecer antes dos 10 primeiros segundos da música se completar (ou até antes disso), por exemplo; a música tem que ter uma minutagem especial pra tocar no rádio e por aí vai. Acredito que, no Brasil, não podemos deixar de citar que, há vinte anos, estávamos começando a nos compreender dentro de uma democracia, e é inevitável não fazer uma relação com o fato de que a ditadura contribuiu enormemente para tornar uma grande parte da população (menos instruída), acrítica, produzindo um terreno fértil para a indústria - nesse caso, fonográfica - explorar.

Isso que estou falando, faz mais sentido se evocarmos a ideia que o Ariano Suassuna tinha a respeito das dinâmicas do sistema. Suassuna dizia que quando os EUA pretendiam conquistar um novo território, eles mandavam pra lá tanques e tropas; hoje, pra atender os mesmos intuitos, os EUA mandam a música do Michael Jackson e da Madonna... Isso faz muito sentido. A despeito disso, como o sistema gera paradoxos, sou otimista com a cena independente gerada nesse mesmo período e que segue até hoje legando, apesar de ser à duras penas, bons frutos.

A relação da tecnologia com a música de Breno Ruiz
Breno Ruiz: Bom, sinceramente, vou deixar a desejar nessa resposta (risos). Eu e a tecnologia não conversamos muito bem, apesar dos benefícios que ela oferece e que eu reconheço. Sei que existem recursos importantes pra divulgação do trabalho e, na medida do possível, tenho tentado dialogar com essas ferramentas, como redes sociais e tal.

No campo da gravação, da produção em estúdio, há perfis tecnológicos que atendem demandas de grande especificidade. Há estúdios que atendem uma produção apropriada para audiófilos, por exemplo. Enfim. Meu trabalho não se enquadra, necessariamente, nessa categoria. Foi gravado no interior, num estúdio que tem se tornado importante para os músicos do cenário criativo, a Gargolândia, e finalizado aqui em São Paulo, no Dançapé, do meu amigo e parceiro Mario Gil. A preocupação era promover um registro honesto do trabalho, nada além. E acho que atingimos o objetivo.

A colaboração/influência de artistas como Paulo Cesar Pinheiro, Mônica Salmaso e Renato Braz
Breno Ruiz: O Paulo Cesar Pinheiro não mexeu com o rumo do trabalho, mas com o rumo da minha vida. Quando eu ainda me esboçava um compositor, foi ele quem percebeu o rumo que minha música, esteticamente, tomaria. Ele identificou a ancestralidade presente na minha criação e me motivou a seguir. Uma ocasião, mandei algumas canções pra ele letrar e, junto, enviei uma carta. Eu dizia na carta: “Paulinho, tô enviando uma cantilena, daquelas que eu faço...” Ao retornar, ele me falou: “Isso dá nome de disco. Pense num disco chamado Cantilenas Brasileiras”. Doze anos depois, agora, o disco saiu. O Renato e a Mônica são fundamentais na minha vida musical, como referência. E o Renato esteve muito presente no processo final da produção do meu disco. Mas quando os conheci, o disco já estava há muito delineado, esperando apenas o momento de se concretizar.   

A relação entre o momento (turbulento) político e o interesse pela música
Breno Ruiz: Acho que (o cenário político) não afeta o interesse pela música. A música, o som, faz parte da natureza humana. Acho, aliás, que faz parte da Natureza, com seus múltiplos sons, seus múltiplos coloridos e coloridos sonoros. Nesse caso, acredito que afete o interesse por algum segmento específico.

Novamente, você sugere o nosso contexto social, o “turbulento momento social que vive o país”. É o olhar local, que todos temos. Há pouco tempo, estive numa festa japonesa muito tradicional. Era uma festa de cunho religioso, uma espécie de dia de finados pra eles. A surpresa foi chegar na festa e ver danças tradicionais acontecendo ao som de uma música com todas as características de uma música pop de baixa qualidade, mas com letra em japonês... Ou seja: há uma decadência evidente, mas ela é global. Ela afeta outros países. Acho que no nosso momento precisamos entender a direção que mundo tomou, que o mundo está tomando, e então devemos tentar compreender como podemos efetuar um diálogo com o que é local, e o que é global, sem que este passe a existir em detrimento daquele. Mas acho que o interesse pela música nunca será perdido. E, como acredito também que a história é dialética, e que a gente sempre volta ao mesmo ponto, mas de maneira diferente, tendo a ser otimista em achar que,  em algum momento, uma música, uma arte de excelente qualidade, voltará a ser o padrão, em algum momento da nossa história.

Breno Ruiz indica
Breno Ruiz: Poxa... Citaria todos os mestres, e aqui no Brasil são tantos! Nessa linha que transita pelo erudito e o popular, me ocorre Waldemar Henrique, Heckel Tavares, Jayme Ovalle, Catulo, Nepomuceno, Vila, Mignone, sem esquecer de Nazareth, Chiquinha, Callado, Pixinguinha, Radamés, Jobim. Há um compositor pouco conhecido, um sorocabano, o Nilson Lombardi, maravilhoso; Guerra-Peixe, Claudio Santoro. Todos eles, ali, transitando por uma linha tênue entre o erudito e o popular, mas muito mais do que isso, todos eles, ali, transitando por esse Brasil Profundo. Referências contemporâneas como Guinga e Sergio Santos são fundamentais; Dori Caymmi, enfim. A lista não teria fim (risos)

Futuro
Breno Ruiz: Espero que haja algum trabalho e que a Música permaneça visitando minha vida, principalmente isso. No mais, não premedito muito as coisas, não espero; apenas vou realizando, conforme as possibilidades que o passar do tempo oferecer.

A música passa por aqui.

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