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Entrevista MOSKA

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Seu nome é Paulo Corrêa de Araujo, mas todos o conhecem como Moska, às vezes Paulinho Moska. Um dos artistas mais elogiados na música brasileira contemporânea, não cabem adjetivos para descrever o talento de quem soube como poucos alcançar o sucesso através de diferentes mídias, culturas e, principalmente, composições que marcaram época.

Dono de um repertório vasto, que compreende mais de uma dezenas de trabalhos lançados, Moska realizou no último ano mais uma daquelas parcerias que não tinham como dar errado. E obviamente não deu, afinal, juntar seu talento com a lenda do rock argentino, Fito Páez, só podia resultar em um dos trabalhos mais elogiados em 2016, o ótimo Loucura Total.

E são tantos assuntos que fica difícil contar tudo em um breve resumo, por isso, nessa deliciosa entrevista deixamos o próprio Moska contar tudo o que mais queríamos saber. Mais do que um bate-papo, essa entrevista no Passagem de Som é um verdadeiro aprendizado para quem ama música assim como nós, o Moska e você, caro leitor. 

A parceria com Fito Páez e a paixão pela música latina
Moska: Foi maravilhosamente trabalhar com o Fito porque eu não o conhecia pessoalmente. Eu sabia que ele era um tremendo artista, um verdadeiro ícone lá fora, em todo mercado latino, mas eu não o conhecia pessoalmente assim como ele também não me conhecia, e ainda assim foi algo muito tranquilo.

A ideia desse projeto veio da cabeça de um diretor da Sony, o Richard, que viu a legitimidade das duas carreiras. Fito era o artista latino que mais encontrou músicos brasileiros e eu acabei sendo um dos artistas do mundo pop que mais se comunicou com artistas latinos a partir de meu encontro com o uruguaio Jorge Drexler.

Ele me apresentou a vários outros artistas como o Kevin Johansen, fomos juntos ao Chile e conheci a maravilhosa Francisca Valenzuela... enfim, fui conhecendo muita gente boa, aperfeiçoando meu espanhol. Também participei de dois festivais em Brasília que promoveram o encontro entre artistas latinos, publiquei artigos que foram publicados falando sobre a “teoria do portunhol”e essas questões.

O próprio Fito também estava nessa mesma estrada e acabou legitimando muito bem esse nosso encontro. Quando nos encontramos um olhou para a cara do outro e já falou no disco. Foi sentar e dizer “vambora!” (risos).

A ideia era muito boa e muito legítima, mas só foi possível depois do nosso primeiro encontro para compor, não sabíamos se ia dar certo, o disco só poderia dar certo se acontecesse essa química. E de fato no primeiro dia que cheguei na casa do Fito, em Buenos Aires, onde nos reunimos para compor, ele me recebeu e levou para o piano para mostrar a música Hermanos sem letra, a primeira do disco. Quando eu ouvi já disse “isso já é um hino só no lá lá lá” (risos). Logo nesse encontro fizemos umas cinco músicas do disco e eu gostaria muito de escrever uma música sobre esse encontro. Nós entendíamos que era algo muito inédito um brasileiro e um argentino fazendo um disco juntos. Então quando soubemos disso e vimos que tínhamos aquela química, naturalmente o disco passou a ter esse conteúdo. O eixo principal, a coluna vertebral do disco, é o encontro das culturas. Loucura Total é isso, uma metáfora desse encontro.  É um disco cheio de esperança e vibrante, que tem uma alegria e uma generosidade nessa coisa de “conta comigo”. Acho que tudo aconteceu graças a uma química que não temos controle.

Foi um projeto que nasceu muito alternativo e acabou atingindo a presidência da Sony latina e se transformou em um projeto para duas culturas, com encartes diferentes e direcionados para os dois mercados. O projeto virou algo muito vibrante.

A música latina no mundo
Moska: Primeiro é preciso entender que todos esses povos tem uma influência latina. Os Estados Unidos, que definem nossa música como world music, mas vê que metade da população americana tem ligação direta com essa cultura já fica algo estranho. Na verdade esse termo “Word Music” nem é tão usado mais, já se é visto como música latina, assim como o cinema indiano e latino, que antes eram vistos como “cinema do mundo” agora tem sua identidade. Acho que já estamos passando por tudo isso. Pouca gente fala, mas o mercado latino é maior que o brasileiro... para se ter ideia, só o mercado mexicano já é maior que o brasileiro.

O México é uma espécie de portal para toda cultura latina, porque não é exatamente a América Central. Ele está de frente para a América do Sul e absorvendo tudo aquilo em volta. Além disso tem uma cidade gigante como a Cidade do México, 3 ou 4 vezes maior que São Paulo. Lá a música vibra o tempo todo e o disco acabou chegando nesses lugares. Para se ter ideia estive com o Fito ao vivo na CNN falando com o público latino.

As coisas estão mudando e a música precisa desse encontro do Brasil com a música latina. Isso é ótimo para fortalecer essa questão de continente porque ambos os lados perdem muito! O Brasil com seu isolamento da língua e na ideia de autossuficiência e de preconceito com a cultura hispânica e o mercado latino, que seria maravilhoso absorvendo o Brasil também.

Os nomes clássicos latinos e sua relação com o Brasil
Moska: Acredito que existe uma barreira que precisa ser quebrada. É bem diferente o mundo com tecnologia de informação, que de acordo com sua curiosidade você pode encontrar entrevistas, músicas... você cria sua cultura. É diferente daquilo que era antes, de uma cultura 100 % imposta.

Você pega um artista como Lulu Santos, que fez Rock in Rio com 80 mil pessoas pulando na frente dele e não tem condições de fazer América do Sul, assim como o Soda Stereo não tinha como fazer aqui. Eles teriam que abrir mão da sua condição e arriscar tocar para 300 pessoas fora dos seus países.  

Foi isso que o Paralamas fez naquele momento da carreira. Eles já tinham uma carreira estável aqui se apresentando com uma banda de oito músicos e voltaram a fazer shows como trio e tocar em teatros pela América do Sul. Construir uma carreira em outro país é um processo muito trabalhoso porque você precisa refazer um trabalho que você já fez no seu país. Eu tive um processo de autoconhecimento muito grande fazendo shows fora do Brasil porque as pessoas vinham algumas qualidades no meu trabalho que meu próprio país não via. E foi ótimo porque eu tive a chance de acreditar de verdade no meu trabalho.

Com isso fui três vezes ao Japão, fui até a Europa... tudo pequeno, mas você vai percebendo que existe um olhar diferente para sua música que não o brasileiro. O mundo com a tecnologia da informação se tornou um lugar menor. Antigamente nós não tínhamos essa ideia do que existe do outro lado. Agora tudo é mais evidente.

Sim, é mais fácil construir uma carreira em outro país em virtude da tecnologia, mas por outro lado essa tecnologia multiplicou a quantidade de artistas para milhões. Não é só mais a gravadora, não é só a TV ou o rádio, é possível construir pela internet, mas a concorrência é muito maior também.

A parceria com Liminha
Moska: Nós primeiro optamos por não ter produtor até termos um repertório definido para o disco. Quando estávamos próximos de ir para Trancoso, quando fizemos a 12ª canção e fechamos isso, o Fito sugeriu que deveríamos ter um produtor para ficarmos de artistas no estúdio. Ele pediu para eu sugerir alguém e eu pensei “vou sugerir o melhor!”, aí falei do Liminha e ele já o conhecia.

Nós sabíamos que era um rock que teria rock argentino e música brasileira, onde transitávamos muito bem. Quem era o produtor que gravou tantas bandas de rock brasileiro e nomes clássicos da MPB? O cara que tinha essa amplidão toda para fazer o rock ser algo espetacular e ao mesmo tempo o sambinha ser algo bem carioca? Acho que o Liminha foi a escolha mais acertada de todas, só menos que a minha com o Fito (risos).

Liminha encontrou muitos grooves. Nós tínhamos as músicas, a indicação de como seria a bateria etc, mas quando ele entrou, o que ele propôs de formato para cada canção era incrível. Ele cortou partes enormes de canções, sentou no ProTools e tinha jogado muita coisa fora, era incrível! Nós gostávamos das 19 músicas que tínhamos e ele cortou 7! E das 12 que ficaram ele ainda cortou muita coisa dentro.

Quando ele mostrou o que ele achava que era o disco nós nos olhávamos e pensávamos “está bom pra caralho!”, ele colocou um dedo que foi crucial. Acredito que esse talento dele foi o que chamou a atenção da Sony latina. Foi muito objetivo, vibrante e impecável de que todas as músicas tinham muito conteúdo. Eu escuto muito disco e isso é importante demais! Eu tenho certeza absoluta que esse disco está entre uns 10% onde todas as faixas dizem alguma coisa.

Moska e os novos formatos
Moska: Acho que o CD virou um item de coleção, tem gente que gosta de ter o CD e é ainda uma coisa que você leva pra casa. Existe aquela coisa romântica do vinil, de ler as letras... de saber que aquele é o disco. Minha sensação com a mídia digital é que você pede emprestado... você entra no Spotify e pega emprestado, depois devolve. Daqui a pouco você pede emprestado de novo. O CD na mão te dá aquela sensação de que a música é sua.

Ao mesmo tempo estou falando uma coisa muito idiota porque a música não existe como objeto, ela é invisível. Não dá para pegar ela não e o CD é só o canal. Gosto muito da ideia da música não existir como objeto, que é o que acontece nas plataformas digitais, você acessa ela. No futuro ideal não haveria mais discos. E a Sony vai me matar falando isso (risos).

Mas a verdade é que não precisamos mais do CD, ele é um objeto que você quer ter. Você não pode dar de presente para sua mãe uma audição no Spotify, ela vai achar que você foi um filho muito desnaturado, agora se você chegar com um disco do Roberto Carlos ela vai te dar um abraço e agradecer muito. Nós nos ligamos nisso, mas apoio demais esses canais, mas acho que no futuro a música devia ser de graça e o artista fazer dinheiro com o show. As gravadoras já vem num movimento parecido com isso. A própria Sony tem um braço que trabalha nesse sentido. Esse modelo das gravadoras está mudando e o a ideia é vender o conceito do artista cantando essa música ao vivo. Essa é a diferença do Spotify ou do Deezer. Gosto da tecnologia que liberta a música dos compradores.

O poder da música
Moska: Eu nunca compus para uma novela ou para um personagem. Para minha surpresa são músicas minhas que acabaram servindo para uma novela, um personagem ou um filme. Me formei em teatro, não me considero um músico porque nunca estudei música. Me considero um artista. Para mim tudo é sempre teatro. Minha relação com música e palco é de teatro.

Às vezes acho que eu sou um ator fazendo música e alguém vai bater na minha porta e dizer “acabou, descobrimos que você é uma farsa” (risos). Eu me sinto muito um cara que junta as coisas, que junto os acordes do violão com as palavras que escrevi, mais as fotos que fiz... tudo buscando algo em comum... é isso que me norteia.

A relação da música com a imagem muda tudo. A história do cinema é na verdade a história da música. Nós voltamos para aquela ideia da música ser tão poderosa mesmo sendo invisível, de não conseguirmos colocar o dedo nela. Ela se liga a alguma coisa que nas religiões é o espírito, a alma. Já na ciência é a energia. A música é poderosa justamente por estar nesse nível, por não entrar pelos ouvidos, mas pelos poros das pessoas.

A música passa por aqui.

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