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Entrevista NOVAS FREQUÊNCIAS (Tathiana e Chico Dub)

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 Como se faz um festival? Como se escolhem os artistas? Quais fatores são levados em conta na hora de montar um line up que faça uma conjuntura formada por público, curadoria e patrocinadores esteja em sincronia?

O Novas Frequências, evento realizado no Rio de Janeiro desde 2011, é um verdadeiro sobrevivente. Mais do que isso, é um patrimônio cultural brasileiro. Dedicado à música experimental, explora uma estrutura musical que não toca no rádio e para muitas pessoas nem mesmo soa como música. Com uma curadoria exemplar realizada por Chico Dub e Thatiana Lopes, o festival já realizou no Brasil edições memoráveis, como a que trouxe ao país Com Truise, expressivo nome de vanguarda.

Em 2018 não foi diferente. Mesmo com um ano turbulento e realizado poucos dias após a eleição mais caótica da história do país, conseguiu reunir artistas de grosso calibre para mais uma edição exemplar, que trouxe ao país artistas como Fennesz e o duo The International Nothing, que também está aqui nas páginas do Passagem de Som com uma entrevista lindíssima!

Conversamos com Chico e Tathiana sobre tudo o que envolve o Novas Frequências. Line up, finanças, o caráter social do festival e, principalmente, música!

A montagem de um festival como o Novas Frequências
Chico Dub: Tudo começa, digamos, após a escolha de um conceito chave – no caso deste ano, o “infinito”. A partir deste ponto, começa-se a pontuar uma série de questões que vão se contaminando entre elas: artistas que nunca vieram ao Brasil, talentos emergentes, espaços do Rio de Janeiro que ainda não utilizamos (e, ao mesmo tempo, venues onde gostaríamos de estar novamente), convites para desenvolvimento de projetos comissionados que se identifiquem com o tema do festival. É um quebra-cabeça dificílimo de montar. Até porque, sempre buscamos evoluir em relação a edições anteriores e, principalmente, não nos repetirmos.

A relação música e finanças em um festival tão segmentado como o Novas Frequências.
Thatiana Lopes: O Novas Frequências, mesmo num mercado mais segmentado, é um festival bastante acessível. Um dos objetivos do festival também é estimular e colaborar a cada edição com a formação de público para essa cena, por isso nosso desafio é grande, pois não contamos com bilheteria – por exemplo – para viabilizar o festival.

Fazemos um trabalho contínuo, desde 2011, para trazer patrocinadores e parceiros estratégicos que entendam o festival, que traz um conceito e um formato que mesmo depois de 8 anos, ainda pode ser considerado "novo" pelo tipo de atrações que propomos.

Por isso, apesar de estar num mercado mais nichado, temos conseguido parceiros que apostam no festival. Alguns deles estão com a gente desde o início. Ainda assim é um processo que nos exige muito trabalho para garantir uma "matemática" que nos possibilidade não cobrar ingressos ou cobrar a preços mais populares.

Marcas de peso envolvidas em nichos como o da música experimental
Thatiana Lopes: Essas marcas olham para o festival como uma plataforma de inovação e um espaço de investigação que nos possibilita gerar uma série de experiências. É isso que interessa as marcas parceiras do Novas Frequências, não só a música, mas como ela é apresentada em suas diversas possibilidades, com artistas de diferentes linguagens e para um público que se faz cada vez mais presente e participativo ao longo desses anos.

A associação da palavra “festival” com experiências megalomaníacas como Lollapalooza e Rock in Rio
Thatiana Lopes: São experiências muito diferentes, mas vejo que existe um público cada vez menos interessado em experiências tão genéricas e abrangentes, onde a música não é exatamente o maior atrativo como acontecem nos grandes festivais. Somado aos preços altos, a oferta cada vez maior de shows e eventos e a realidade econômica do país, a tendência é que a presença desses festivais diminua cada vez mais.

A relação da música experimental com o que acontece na sociedade
Chico Dub: A princípio, minha única preocupação política era aumentar o número de artistas negros no festival. Há anos que o Novas Frequências já vem equilibrando a participação feminina no line-up, pautando-se em diversas movimentações como o Keychange, uma iniciativa internacional que incentiva os festivais a alcançarem equilíbrio de gênero de 50/50 até 2022. Mas sempre me incomodou não haver algo parecido em relação a cor.

Por outro lado – e até escrevi isso no meu texto de curadoria – o tema desta 8ª edição começou, na pré-eleição, a ganhar um outro contorno bem menos lúdico, metafórico e artístico. A escolha da maioria dos brasileiros me lembrou do conceito do “eterno retorno” de Nietzche, que diz que estamos sempre presos a um número limitado de fatos, fatos estes que se repetiram no passado, ocorrem no presente e se repetirão no futuro, como por exemplo, guerras, epidemias, etc.

O retrocesso brasileiro é esse loop infinito, o eterno dia da marmota.

É fácil atrair grandes nomes da música experimental internacional para o festival?
Chico Dub: Sim e não. O clichê que diz que todo artista gringo quer tocar no Brasil não deixa de ser verdade. Ainda mais no final do ano, quando a temporada de shows e eventos no Hemisfério Norte está desaquecida. Muitos artistas, inclusive, aproveitam o convite que fazemos para esticar suas estadias e curtir um sol, umas férias.

O que pesa ao contrário é o enfraquecimento da nossa moeda – é muito mais caro hoje em dia trazer atrações internacionais. Em função disso, parcerias acabam se tornando cada vez mais estratégicas. O Fennesz, por exemplo, também tocou no Chile e em São Paulo. E o The International Nothing, no Recife e em São Paulo.

Vivendo de música experimental no Brasil
Chico Dub: Na verdade, eu considero que o acesso do público à música nunca foi tão fácil, barato e descomplicado. O que é complicado, complicadíssimo, no meu ponto de vista, é a distribuição; é se tornar visível num mercado saturado. O volume da produção musical hoje em dia é colossal. É muita, muita coisa mesmo sendo produzida, então a cadeia mais fraca, o underground, tem sofrido mais do que nunca.

O grande sonho do Novas Frequências
EChico Dub: arth é o sonho máximo. Um trio, às vezes quarteto, encabeçado pelo guitarrista Dylan Carlson e inventor de um gênero conhecido como doom metal.

Novas Frequências indica
Chico Dub: Conhecer selos independentes é a melhor forma de estar a par do que acontece com esse tipo de som no Brasil. Recomendo o QTV, Seminal Records, Sê-lo!, Estranhas Ocupações, Submarine, Desmonta, Sinewave, Nada Nada Discos, Meia Vida, as coletâneas Hy Brazil, dentre muitos outros.

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