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Entrevista SPIRAL GURU

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Donos de um disco feito para se ouvir do início ao fim, o Spiral Guru é mais um daqueles nomes que todos precisam prestar atenção, afinal, VOID é um disco que foge de qualquer rótulo. É como se o caldeirão da banda, cheio de elementos do passado, condensasse algo diferente e autêntico, alheio a qualquer sentimento de nostalgia.

Formado pela vocalista Andrea Ruocco, o guitarrista Samuel Pedrosa, o baixista José Ribeiro Jr e o baterista Alexandre Garcia, a banda lançou seu primeiro disco cheio recentemente, em mais uma feliz escolha da Abraxas, que vem pavimentando uma estrada bastante peculiar nos últimos anos.

Com VOID, o Spiral Guru vai além das referências óbvias sessentistas e setentistas e surpreende com faixas que abusam da maturidade em um disco de estreia. Carregando na bagagem a experiência de um EP, o grupo chega forte para fincar sua bandeira, mostrando que a atual safra de bandas nacionais é uma das melhores dos últimos tempos.

O Passagem de Som conversou com a vocalista Andrea Ruocco sobre todos os caminhos que levaram até o lançamento de VOID e muitos outros assuntos em uma ótima entrevista!

A identidade do álbum VOID
Andrea Ruocco: Acreditamos que, justamente por realizarmos um processo contrário do que sugere nossa música, conseguimos resultado interessante com VOID.

Explicamos melhor: embora tivéssemos referências compartilhadas e já um bom registro anterior com o EP Hole to the other side, nós tentamos não estipular o que deveria ser “a cara da banda” antes de fecharmos as criações para o disco cheio. As músicas foram construídas de forma coletiva e acreditávamos que se impuséssemos um rótulo prévio e único como, por exemplo, Stoner Rock, correríamos o risco de limitar nossas criações e experimentações. Desta maneira, não nos preocupamos em apresentar um emaranhado de referências, mas sim, em construir músicas que condensassem determinadas ideias e discursos em sinestesias distintas... o emaranhado de referências era bem-vindo em nossos encontros criativos!

O Space Rock é uma vertente musical “datada”?
Andrea Ruocco: Achamos minimamente curioso este tipo de pensamento, porque algo “datado” implica em algo que ficou preso em um tempo e espaço; o que observamos é que há tantas criações recentes que evocam elementos do Space Rock, e, ao mesmo tempo, tantas bandas sendo revisitadas! Além disso, evocar tais elementos não é bem uma prática nostálgica, mas um reconhecimento de que há um potencial a ser explorado a partir destas sonoridades anteriores, e, na verdade, só é possível este reconhecimento porque já perpassamos por outras sonoridades... essa dinâmica só contribui para uma das principais temáticas de VOID: as várias formas de se lidar com o tempo, entre elas, a circularidade!

A estrutura de VOID
Andrea Ruocco: Não sabemos dizer se VOID é realmente tão complexo, mas podemos dizer que com certeza é polissêmico! O álbum permite diversas camadas de interpretação e isso tem nos ajudado na divulgação, pois ampliou o público atingido, inclusive, talvez seja por este mesmo motivo que VOID está agradando, por não subestimarmos o leitor/ouvinte, que sente o álbum a partir de seu repertório.

Temos que ter em mente que uma grande parte do público também produz música, produz conteúdo na rede e está envolvido de alguma forma com bandas. Assim, na medida que aumenta a oferta neste “mercado independente”, também aumenta o número de pessoas envolvidas e interessadas nestes sons ditos mais experimentais e do underground. Outra questão importante é que, neste mundo imagético é necessário sermos de alguma forma vistos. Portanto, pensar uma identidade visual, produzir materiais audiovisuais e manter ativa nossas redes sociais são estratégias e ferramentas importantes na divulgação de um trabalho musical. Sabemos disso, e estamos trabalhando neste sentido! O grande desafio é administrar tudo isso diante dos recursos financeiros (e humanos) que temos, pois conciliamos a Spiral Guru com nossos outros trabalhos e profissões.

Por que o Brasil ainda resiste diante de novas tendências na música pesada?
Andrea Ruocco: De fato, bandas como Mastodon e Red Fang, que possuem um trabalho invejável, sólido e notável em outros países, não são tão escutadas no Brasil. É comum que determinadas sonoridades sejam mais ou menos assimiladas em certas localidades e isso não acontece somente com o rock dito mais pesado. Assim, bandas como a Spiral, que assumem contaminações como estas, não podem se ater a uma demanda marcada por uma regionalidade. Além disso, quando colocamos as vertentes mais ouvidas no Brasil em comparativo com outras, dá-se uma impressão de disputa de espaços, o que não acreditamos que ocorra de fato! Temos a impressão que cada vez há mais espaço para uma diversidade de estilos e vertentes convivendo concomitantemente.

VOID no palco
Andrea Ruocco: Obviamente que o show não replicará exatamente as gravações. A gravação sempre permite recursos que acabam não chegando aos palcos e, no caso específico de VOID, tivemos a participação de outros músicos que não integram a banda, que eventualmente podem participar de alguns shows, mas não em todos. Por outro lado, quando as músicas são executadas ao vivo tendemos a dar um peso maior, há uma energia mais intensa... o disco e o show acabam sendo experiências diferentes para a banda e para o público, experiências que se completam.

A identidade do Spiral Guru e a estrutura de faixas como Mindfulness
Andrea Ruocco: Queríamos uma música imagética, que suscitasse uma estrutura visual, compusesse uma ambiência para que, então, os vocais emergissem juntamente com a vontade de estar presente neste ambiente onde a banda habita. Por isso adoramos ver esta palavra “desenho” em sua pergunta, ela é extremamente oportuna para descrever a introdução, um bom sinal de que a proposta está funcionando.
Alguns comentários nas redes sociais associam Mindfulness a algo mais tribal, folk, progressivo. Não há consenso nas descrições, mas a maioria dos comentários são elogiosos. Não há necessidade de consenso... acho que voltamos a nossa questão inicial!

A dedicação da mídia ao underground
Andrea Ruocco: Se a grande mídia não abre espaço para bandas independentes, bandas underground, hoje existem inúmeros meios especializados, que acabam atuando, inclusive, como espaços de encontro, que disponibilizam notícias, compartilham experiências e indicações acerca de sonoridades semelhantes. Temos percebido que, estes blogs, canais, fóruns tem nos recebido muito bem e colocado em diálogo com tantos outros trabalhos interessantes no mundo todo. Ao mesmo tempo, são locais de formação e divulgação.

A música pesada em tempos de conservadorismo
Andrea Ruocco: O conservadorismo moral e político caminha em paralelo com o cerceamento da arte – os motivos nos são óbvios, mas, temos percebido que este cerceamento também tem provocado a nós e a outros músicos a encontrar outras ferramentas e mecanismos de sobrevivência, assim como novas formas de colocar pautas em discussão! Em VOID o mecanismo foi adentrar ainda mais em metáforas e alegorias, e os problemas atuais de nosso país estão ali... não à toa, descaradamente, a capa traz a mata amazônica.

O futuro
Andrea Ruocco:  Lançaremos mais um videoclipe em breve e faremos o primeiro show de VOID na íntegra neste mês de agosto no Festival Locomotiva. Pretendemos fazer mais shows, tocar em outros estados e festivais e prensar o disco em formato físico, mas isso dependerá muito de como as coisas se desenrolarão nos próximos meses diante de nossos recursos. Dependemos da recepção e demanda do público para alcançar estes objetivos.

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