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Entrevista PEDRO MARIANO

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Se o ditado "filho de peixe, peixinho é" precisar de um exemplo que comprove a teoria, Pedro Mariano é o cara certo! Irmão de Maria Rita, o músico e produtor paulista é filho da cantora Elis Regina e do pianista César Camargo Mariano. Seguramente alguns dos maiores nome da história da música brasileira.

Mas Pedro Mariano não vive da fama da mãe. Longe disso! Artista de mão cheia, construiu uma carreira baseada na mais fina classe enquanto se envereda pelos caminhos da MPB, do soul e do pop, além de sempre reverenciar o talento da mãe, o que resultou há alguns anos no projeto Elis por Eles, concebido por vozes apenas masculinas e marcantes. Pedro Mariano, diretor do espetáculo, convidou 14 cantores brasileiros, entre eles Jair Rodrigues, Chitãozinho e Xororó, Emílio Santiago, Cauby Peixoto, Diogo Nogueira, Jair Oliveira e Lenine. A ideia de escolher somente homens foi para salientar a força da obra de Elis Regina, que influenciou e influencia gerações e que não se restringe ao universo feminino.

Outro projeto de Pedro foi a oportunidade de ter gravado com uma orquestra, um evento devidamente registrado em DVD e que ilustra muito bem a versatilidade de um artista que não cansa de ousar na carreira.

O Passagem de Som conversou com Pedro sobre o projeto Elis por Eles, sua carreira solo e diversos assuntos em uma belíssima entrevista.

A celebração a Elis
Pedro Mariano: Sendo bem sincero eu não me surpreendo mais com a recepção que existe em torno da Elis. Principalmente no que se refere ao público e a renovação dele. São tantos anos vendo essa receptividade que quando digo isso não existe nenhuma soberba nessas palavras e muito pelo contrário, é um orgulho imenso! É uma força impressionante o que ela passa.

Esse projeto que realizei em 2012 para a lembrança do 30º aniversário de morte dela foi uma coincidência porque vinha sendo preparado desde 2009 e era para ter sido lançado em seguida, mas por força de leis de incentivo e patrocinadores acabou estendendo-se até 2012. Acabamos aceitando e entendendo que isso não era para ter sido feito antes e que ele faria parte do grupo de celebrações que foram feitas naquele ano.

A criação do projeto Elis por Eles
Pedro Mariano: Não houve nenhum problema na hora de elaborar o repertório e decidir as faixas, até porque nesse tempo todo em que trabalhamos deu tempo de amadurecer todas as ideias que tínhamos em relação ao projeto. Fora isso tudo o que é relacionado a Elis é algo impressionante porque as pessoas compram a ideia, não há uma resistência em nenhum aspecto, então todos se desdobraram para conseguir estar junto naquele momento. O repertório fez de mim uma espécie de mediador. Eu fazia perguntas para os artistas e diante disso chegávamos às melhores faixas que cada artista queria cantar dela. Foi algo muito natural, não houve negociação, quisera eu que tudo na vida fosse tão fácil assim (risos).

O catálogo de Elis na internet
Pedro Mariano: Eu tenho muita vontade de colocar os discos mais emblemáticos dela, seja em caráter de raridade mesmo, de remixar e masterizar como foi feito com o Elis & Tom, mas não adianta existir um esforço unilateral, não adianta querer apenas. Tem que existir o interesse de todas as companhias onde ela passou porque é um investimento muito alto e muitos desses discos precisam ser restaurados.

Não se trata de um processo barato e não adianta eu querer sozinho, envolve muita gente, mas tenho muita vontade e sempre fui atrás de saber como fazer. Não é impossível, mas requer disponibilidade  e dedicação. Para se ter ideia, em algumas ligações que fiz a restauração de material se equivalia à produção um novo disco. É totalmente fora da realidade, isso teria que ser um tiro muito bem realizado, além disso teria que encarar a própria desconfiança do mercado... não é uma equação simples, mas tenho muita vontade de fazer.

O reconhecimento do Brasil com a sua música
Pedro Mariano: Não sei... alguns projetos são muito bons em suas realizações, mas outros me parecem um pouco oportunistas. É muito difícil colocar todo mundo no mesmo balaio. Existem projetos que foram feitos por pessoas idôneas e foram muito legais e autênticos, da forma que tem que ser feito. Por outro lado alguns não deixam nenhum resíduo positivo nem para o artista homenageado e nem a quem participou. Eu particularmente acho legal fazer quando você tem um recado para dar e você vai agregar um tipo de valor.

Agora se você vai fazer por qualquer motivo tipo “ah, esse ano vai ser comemorado 50 anos da Tropicália e vamos fazer um projeto” e você não viveu aquilo só porque vai ser legal, então não acrescenta muita coisa. Diante disso não sei dizer se a estrutura brasileira está reconhecendo bem e está demonstrando esse carinho de verdade. Homenagem quando é de coração e feita de maneira idônea sempre aparece e você consegue identificar, elas são bem-vindas, mas ainda fizemos pouco perto do que essas gerações passadas fizeram por nós.

A tecnologia vs talento
Pedro Mariano: Quando você não tinha esses subterfúgios tecnológicos você tinha que mostrar na hora o que sabe. Se você não conseguisse o resultado você tinha que repetir a gravação. Agora você não precisa fazer “a boa” porque o computador faz isso para você. Dessa forma você passa a exigir menos de si próprio e pior do que tudo isso, você nivela por baixo. Mas na hora H, no palco, não tem como disfarçar, então você cria em estúdio uma falsa sensação para o público.

Não é que o nível caiu, mas você não precisa mais se dedicar tanto à sua profissão, seja na afinação ou arranjos. Se você não se dedica a isso você nunca vai ter a percepção de boas letras, por exemplo. Isso faz com que a música entre em uma reação em cadeia que impede a produção de coisas de boa qualidade, achando que o que está ruim é bom. O grande problema da música com a tecnologia é que tudo está igual, então você começa a achar que o que é ruim está bom.

O que mais acontece com a molecada que está começando não é dizer “eu quero fazer desse jeito”, mas “eu quero fazer como aquele cara está fazendo”.  Se ele é famoso e faz a pessoa segue e copia sem ter certeza do que está fazendo e sem saber se um método X funciona para ela.

A minha mãe, segundo meu pai, cantava 80% das vozes dela eram vozes guia porque ela já cantava com o microfone certo, adorava cantar se mexendo, então ela já cantava como se estivesse no palco. Aí nego botava por aí a ideia de que ela colocava a voz de qualquer jeito e já gravava, mas não é nada disso. Ela criava uma situação em que a voz já saía do jeito que queria, mas podendo refazer na hora em que desejasse. Mas muita gente preguiçosa colocava que isso era algo como “ah, quanto mais rápido melhor”.

Ela levava muito mais tempo pra gravar um disco do que qualquer nome dessa geração. Levava o tempo que qualquer artista daquela época tinha, mas fazia do jeito que ela queria e enquanto isso não acontecesse ele não era finalizado. Hoje alguém ouve um disco da Beyoncé e acha que sabe fazer aquilo. Acredita que tudo é feito rápido, o computador resolve tudo. Isso é um grande erro e se você não souber cantar, óbvio, você não serve para a profissão.

As novas divas
Pedro Mariano: É muito difícil falar sobre esse assunto porque é um universo com coisas muito diferentes. Acho a Adele um fenômeno, mas não sei se ela é um fenômeno comercial ou talvez de talento. É necessário esperar.

Quando falamos de Elis Regina estamos falando de mais de duas dezenas de discos lançados, uma carreira de muitos anos e uma solidez. Não sei quantos espetáculos em cartaz... tudo muito bonito por todo planeta. Quando você diz isso fica complicado pensar em uma nova diva. O mundo de hoje quer as respostas rápido demais. As coisas estão sendo feitas para acontecer assim. Elis quando apareceu era um fenômeno, mas não uma unanimidade. As pessoas falavam muito dela, mas passou a carreira tendo que dar explicações. Só virou essa unanimidade depois de morrer e isso é normal.

Depois que ela faleceu, com a carreira que teve, claro, ela fica perfeita.  Ela nunca foi a diva acima de qualquer suspeita e basta olharem as entrevistas dela que percebe-se que ela nunca foi acima do bem e do mal. É um assunto complicado porque quando você aponta para um artista você cria uma expectativa nas costas de um artista e ninguém merece isso. Não a toa dizem que ela estourou, e se estourar fosse bom não tinha esse nome.

O mercado hoje é diferente, antigamente você tinha tempo para analisar um artista depois de alguns meses e anos do lançamento do disco. Só depois de um segundo ou terceiro disco. E se aparece alguém novo? Comparam artistas novos com Michael Jackson, mas o legado de cada um é diferente. Os mega popstars de hoje não se comparam com a década de 80 e 90. Essas comparações não levam a lugar nenhum e não agregam nada. Essa necessidade das novas divas é uma questão de mercado.

As pessoas me perguntam quem eu acho que pode ser a nova Elis e eu sempre digo “Espero que ninguém” (risos). Quero continuar tendo a Elis para mim como uma aula que posso consultar a qualquer hora. Espero que ninguém venha a tomar o lugar dela, mas que construam histórias tão lindas como a dela do seu jeito.

A música passa por aqui.

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