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Entrevista LEANDRO LEHART

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É simplesmente impossível pensar nos anos 90 sem Leandro Lehart. Ex-integrante do grupo Art Popular, por onde construiu uma quantidade de hits que beira o absurdo, o músico sempre foi muito além do ritmo que tanto lhe agradece pelos trabalhos que até hoje são referência no gênero. Verdadeiro desbravador de ritmos, Leandro Lehart engatou uma carreira solo cheia de movimentos ousados nos últimos anos e que surpreende a cada ano que passa.

Preocupado com os rumos que o samba vem tomando nos últimos anos, lançou o documentário Mestiço - O Novo Ritmo do Brasil, onde tinha como objetivo criar novos ritmos com músicos de várias localizações do país, um autêntico trabalho em busca das raízes brasileiras. Em paralelo a isso viu faixas de sua autoria serem sucesso e até se tornarem virais, caso de Vem Dançar o Mestiço, nas performances da Carreta Furacão.

O salto mais ousado dessa extensa carreira é Sambadelik, um disco que leva para o universo do samba a música eletrônica. E não o contrário. Tendo como fio condutor o ritmo que tanto ama, Leandro fez uso dos beats eletrônicos para produzir uma música acessível e autêntica, verdadeiro misto de tudo o que Leandro produziu durante a carreira.

O Passagem de Som conversou com Leandro sobre Sambadelik, Carreta Furacão e uma enormidade de assuntos em uma verdadeira aula de música. Uma bela entrevista que realça ainda mais o talento de um artista que sempre foi além das fronteiras do samba e do pagode.

O conceito de Sambadelik
Leandro Lehart: Esse projeto começa lá atrás, na minha pré-adolescência, quando era criança e me apaixonei pelo samba. Foi a época em que surgiu a geração do Fundo de Quintal e aquela galera do Rio de Janeiro como Jorge Aragão. Eu morava em um bairro tradicional de São Paulo, a Parada Inglesa, onde a cada dez metros há uma escola de samba.

Também haviam os bailes black que tocavam música americana, as pessoas dançando break do lado da minha casa. Todas essas sensações musicais que eu tive desde a infância eu levei para o Art Popular e hoje, depois de dez anos pós-grupo, senti que era a hora de fazer algo diferente, de pensar o samba com música eletrônica tocado com nosso swing e sem copiar a música americana ou o pop que mandam pra cá. Queria mostrar um brasileiro usando música eletrônica com cavaquinho. Acredito que embora existam alguns trabalhos sampleando coisas brasileiras, não existe uma verdade de um sambista fazendo música eletrônica. E o Sambadelik tem essa pretensão, de trazer elementos eletrônicos com o nosso jeito, sem colagens ou samples, de um jeito bem brasileiro.

O samba e a tecnologia
Leandro Lehart: Sinceramente acho que o samba ainda está muito atrasado em relação à tecnologia. A música ficou muito democrática, meu computador tem um software para gravar um disco e isso é muito bom porque o acesso chegou ao jovem da periferia. Porém acredito que a tecnologia que é oferecida para nós é feita por americanos e para o som americano, especialmente o pop ou o soul feito lá, então tudo soa bem.

Já o som brasileiro tem outro tipo de ataque, sensação e swing, então se você não tiver cuidado na hora de produzir ele fica robótico, artificial. Fica parecendo algo daqui feito por americanos. Acho que o samba perde muito com isso porque ele deixou de se aproximar da periferia, hoje o som do jovem desses bairros é o funk, a ostentação e até o hip hop americano, que traz elementos de música eletrônica. O o samba sempre foi mais intuitivo e mais humano, e não só no Sambadelik, mas nos projetos que farei daqui para a frente, tenho essa proposta de aproximação, de colocar o samba como algo pop e feito de forma correta. O samba pode ser moderno sem perder sua brasilidade.

A desconfiança com Sambadelik
Leandro Lehart: Durante todo o processo de produção de Sambadelik não tive nenhuma resistência ou desconfiança por nenhum dos convidados porque desde o Art Popular eu sempre vinha buscando novas tendências.

Meu estúdio, que fica na minha casa, sempre recebeu músicos de várias partes do mundo e isso foi sempre bom. Quando o Pharrell Williams veio tocar no Lollapalooza todos os músicos dele ficaram lá. Conheci o Pharrell depois, fiquei no camarim, conversamos e foi super legal. Com o Eminem também aconteceu isso e seus músicos foram até meu estúdio. Também tive um papo bem legal recentemente com o Zalon Thompson, que era o principal backing vocal da Amy Winehouse, e é sensacional tudo isso. Eles ouviram bastante coisa daqui e ficaram fascinados com o que poderiam fazer com o samba, então o que eu quero não é criar um conceito, mas que o público que me conhece do pagode 90 e aquela geração que fez tanto pelo gênero, veja esse som. Quero que o pessoal mais conservador veja isso e tenha a mesma receptividade que o disco já vem tendo.

Essa relação do samba com eletrônico assusta porque existe um contexto histórico pra isso, especialmente com a chegada da soul music na década de 70. Em uma conversa com o Diogo Nogueira, que recentemente gravou uma faixa minha, ele comentava que seu pai, João Nogueira, quando fez o Clube do Samba juntando vários nomes da época, teve uma resistência muito grande porque a música americana havia invadido o país e as rádios haviam parado de tocar a música daqui pra tocar o chamado enlatado gringo.

Hoje a música eletrônica não é um estilo, mas um recurso. Música é um formato universal, você tem que usar o recurso e colocar seu estilo, mostrar de onde você vem continuando a respeitar os grandes nomes do samba. É possível fazer esse trabalho sem se vender aos enlatados americanos. É um recurso que pode te levar a muitos lugares. Você tem que usar ao seu favor.

Estrutura e tecnologia no Brasil
Leandro Lehart: Isso é um assunto delicado e seríssimo. Eu inclusive abordo ele no documentário Mestiço, O Novo Ritmo do Brasil, que está disponível no Youtube e vale a pena assistir.

Tudo aqui é mais caro e mais difícil. Para você ter uma estrutura você paga pelo menos três vezes mais caro, seja para uma guitarra, um baixo ou um computador, mas o grande dilema que vivemos hoje é ver que a música pop feita no Brasil ainda é reflexo demais daquilo que é feito nos Estados Unidos e na Europa. Nós não percebemos que o samba pode ser para o Brasil exatamente o que o blues é para os americanos. Do blues nasceu o rock, o soul, o pop e tudo o que é consumido nos Estados Unidos, mas no Brasil não temos o conhecimento sobre o seu ritmo. Os artistas pop que estão na ativa se referenciam muito naquilo que acontece na parada americana, o que é um problema. Tento fazer com que o Sambadelik mostre que elementos que você vê em DJs e produtores europeus também podem entrar na música brasileira. Como se não bastasse os problemas políticos e sociais que vivemos, ainda temos esse desconhecimento cultural de nossos ritmos. Isso é o que mais me assusta, nossa arte está ficando cada vez mais desconhecida para nós mesmos...

O  efeito “Carreta Furacão” e seu uso em momentos políticos
Leandro Lehart: Não me assustei com o uso da faixa Mestiço pela Carreta Furacão na ocasião em que foram até Brasília no momento do impeachment. Eu tenho uma posição política muito bem resolvida na minha cabeça e acho que independente da postura política, o fato de minha música ser usada como entretenimento é positivo. Ela não está convencendo ninguém de nada, está lá para entreter. Se minha música estiver num boteco, numa formatura ou até em um comício isso me realiza porque, independente de qualquer coisa, a música pertence às pessoas e não a mim. Ela estar naquela atmosfera é positivo para um artista.

O  conceito de sucesso para um hitmaker
Leandro Lehart: Ser um hitmaker é o grande parâmetro de sucesso para um artista. Recebi recentemente uma medalha Nelson Gonçalves, que é dada em seu centenário às pessoas de referência na cultura nacional e isso me deixou muito feliz porque tudo no Brasil é muito póstumo.

Acredito que o grande prêmio que tenho é ter construído de 90 para cá um trabalho interessante e bem brasileiro. Ouvir de músicos que escolheram o cavaquinho para aprender a tocar porque me viram com ele é algo muito enriquecedor. Isso é a verdadeira homenagem. Se eu fosse um artista americano acredito que não precisaria mais trabalhar, mas aqui, embora tenha uma situação estável, trabalho muito e fico orgulhoso de ver artistas regravando minhas músicas. Sou o compositor mais regravado de 90 para cá e continuo vendo isso acontecer. Essa é a minha maior consagração.

A música hoje
Leandro Lehart: Hoje temos que contar muito com o acaso para as coisas acontecerem. A internet de uns 20 anos para cá revolucionou o conceito de música porque ela se tornou basicamente diversão e entretenimento. Aquela valorização de antes mudou. Acredito que o próprio Sambadelik vinte anos atrás teria outra conotação.

O público busca música para se divertir, é incomum buscar a ficha técnica de um lançamento para saber quem tocou no disco, por exemplo. Se a música consegue tirar ela da dificuldade do cotidiano ela já cumpre seu papel. A parte mais conceitual cabe a nós e à imprensa. O mais importante – e minha maior vigilância – é que não me tornei uma pessoa chata, conceitual e isolada artisticamente, algo que vemos ter acontecido com muitos artistas da MPB. O discursou não tem mais aproximação com as classes sociais, esse é o maior foco que tenho. Quero ver minha música na periferia, na casa das pessoas. Faço música para elas e não para mim.

A relação dos grandes eventos com o samba
Leandro Lehart: Não existe relação do samba com os grandes eventos. Ela simplesmente não existe. Até mesmo o jeito de se tocar samba mudou, imagino um estrangeiro vendo e como ele tentaria compreender aquilo. Foge da percepção mundial deles. Mas cada vez mais o samba está se tornando isolado na cultura. Vai chegar uma hora que o samba vai se tornar uma música de turista.

O que mais me incomoda é ver um artista chegando no país e ser recebido de forma caricata, com música, mulatas e comida. Isso faz com que a própria cultura do país seja vista dessa forma. O samba sempre foi o seu mundo particular e vem perdendo seu espaço para o outras vertentes. Não é a toa que no exterior se coloca sempre uma mulata dançando quando mostra a relação do Brasil e o samba, nossa cultura está sendo vista dessa forma, não como algo que pode ser inserido na cultura pop.

A música passa por aqui.

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