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E Entrevistas

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Entrevista TOYO BAGOSO (Mississipi Delta Blues Festival)

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Começou como uma celebração. Hoje, quase dez anos depois, o Mississipi Delta Blues Festival segue sendo uma verdadeiro comunhão entre músicos e públicos amantes do blues, mas muito, muito maior.

Um dos responsáveis por um dos mais belíssimos festivais realizado em solo nacional, Toyo Bagoso sabe bem disso. Com um blues em suas veias e um conhecimento profundo de uma vertente alheia ao mercado pop, o gaúcho transformou o Mississipi Delta Blues Festival em mais do que um festival, mas um evento ímpar de transformação cultural na cidade de Caxias.

Às vésperas de mais uma edição, a nona em sua história, Toyo não esconde a empolgação com o line up do evento e tudo que envolve um festival que soube crescer e se enraizar no calendário brasileiro sem perder a essência.

Baseado nisso, o Passagem de Som conversa com um dos idealizadores do Mississipi Delta Blues Festival em uma entrevista que, assim como o evento, ensina, empolga e leva o blues a um novo patamar no país!

A edição 2016 do Mississipi Delta Blues Festival
Toyo: O festival na verdade começou em 2008, quando o bar foi para a estação férrea da cidade. Estava acontecendo toda uma revitalização na área e criaram uma estrutura onde era um moinho com diversas lojas e voltado às atividades culturais. O Mississipi Delta Blues Festival aconteceu depois de uma viagem que fizemos até Chicago, onde fomos assistir o Chicago Blues Festival, e tivemos a ideia de realizar um evento pequeno onde seria uma confraternização de diversos músicos que tocaram aqui durante o ano. Ele acontece no fim do ano justamente para pegar esse clima melhor e está agora na 9ª edição.

O bar fez 10 anos em 2016 e o festival completa uma década em 2017. Essa edição nos batizamos de Bottle Trees porque a temática será as árvores de garrafas. É algo que quando você viaja para o delta do Mississipi, para o sul dos EUA, se vê muito que eles cortam os galhos para colocar essas garrafas. A origem disso vem do período dos escravos, eles faziam isso como se fosse para espantar os maus espíritos. É uma coisa meio religiosa e tida como símbolo de energia.

A cada nós temos uma temática. Em 2015 foi a Lua Cheia e esse ano a Bottle Trees. Todos os anos se muda alguma coisa e esse ano mudaremos radicalmente.

No último ano eram sete palcos e esse ano serão 8, além do palco de dança, que terá performances do grupo de dança aqui de Caxias. Eles fazem uma performance junto com uma banda tocando ao vivo enquanto se apresentam. O formato dos festivais de blues americanos são diversos palcos onde acontecem shows simultâneos, então é usar o mapa do evento e fazer o roteiro. Alguns shows também se repetem entre quinta e sábado e quem pega o passaporte pode ter a sensação de estar fazendo tudo ao mesmo tempo.

O festival é realizado em um espaço de 11 mil metros quadrados, é um espaço grande, mas o dinamismo das apresentações faz o lugar se tornar pequeno pela quantidade de gente transitando pelo lugar.

A montagem do line up
Toyo: É bem difícil montar o line up começando pelo número de músicos que temos. São músicos ótimos que estão fazendo trabalhos ótimos por aqui. Nós recebemos muito material e é limitado o espaço... temos muitos shows internacionais e, além dos americanos, também existe da América do Sul e da Europa. Temos um pessoal que nos acompanha e estão presentes desde o primeiro ano e o festival acaba sendo meio que esperado para esse encontro. Um exemplo são os Headcutters de Itajaí, que é uma banda que está desde o começo e só vem crescendo. Eles estão sempre com a gente e algumas dessas bandas são a base do festival. É praticamente uma família.

Para montar o line up nos preocupamos que não seja somente de uma vertente do blues. Por exemplo, quando se pensa em um festival de blues muita gente tem aquela visão do lamento, da música mais triste, diante disso muita gente vai ao festival sem conhecer e acaba aprendendo. Nós aprendemos todo dia e com a histórias deles conhecemos cada vez mais caminhos do blues. O próprio delta do Mississipi sempre teve suas divisões. Dependendo da região havia alguma coisa específica e com o tempo nós vamos tentando montar um line up com um pouco de Chicago e uma boa parte do Mississipi, que justifica o título do festival. E tem muita gente boa que acabou não saindo do delta. Não ficaram conhecidos e agora está existindo um reconhecimento com esses músicos.

Quando viajei pela primeira vez a ideia era ir sem data de volta e foi muito difícil conhecer toda essa cultura porque nem eles exploravam isso. Não havia um site específico sobre os músicos locais naquele região e eles não sabiam que havia gente interessada nisso. Eles já contavam que músicos como Bob Dylan e Eric Clapton fizeram essa viagem para descobrir esses artistas, mas o público local parecia não ter ideia de quem estava ali. Não havia nem uma rota, nada. Tudo era muito difícil. Quando fui para lá o dólar era caro, eu viajava de ônibus e é uma estrutura complicada na região. Hoje é algo muito mais fácil. Eles entenderam e temos, por exemplo, o bar do Morgan Freeman e vários músicos e fanáticos por blues mudando para lá. Acredito que esteja se criando um centro muito forte.

Quando trouxemos o primeiro músico do delta do Mississipi ele comentou para alguém, que comentou para outro... essa cena tem muito interesse em participar do festival e estamos fazendo essa ponte com eles. Está havendo até o interesse da câmara de cultura da região em tentar facilitar as coisas para se crescer cada vez mais. É por aí que tentamos montar.

Nesse ano temos o Cedric Burnside, que é o neto do lendário R.L. Burnside. Ele já tocava com o vô dele, o pai também era músico e ele é um baterista que canta dentro do projeto com um guitarrista. É um som muito cheio, impressionante. Eles continuam levando a frente o Rio Country Blues, que é um blues das montanhas, uma outra área do Mississipi, misturado com a modernidade. Há o hip hop, um veneno diferente. Ouvindo uma música dá para entender que é um trabalho diferente.

Outro show que vai ser importante e vai finalizar o festival nós conhecemos depois de uma viagem. Tínhamos passado pela Flórida duas vezes, mas nunca procuramos especificamente, e dessa vez fizemos essa pesquisa. Aí conhecemos a banda, que pra gente foi uma grande surpresa, foi o Jake P. Soars, que nasceu no Arkansas, mudou para a Califórnia, com a banda dele com metais, passou muito tempo lá e quando chegou na Flórida ele começou a fazer uma mistura do blues com ritmos latinos. Ele tem dois trabalhos, um inclusive de gypsy jazz que vai caber direitinho em um palco que chamamos de “casinha”, onde a maioria dos americanos têm tocado, são seis shows durante o festival, onde o Cedric e o Jake, que tocam no palco principal, também tocarão nele. A sonoridade de uma atmosfera de madeira se propaga de outra forma, dá vontade de ficar ali na frente deles e assistir esses shows.

A devoção pelo blues
Toyo: Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o país que mais consome blues no mundo porque tem muitos músicos, gravadoras e gente ligada ao blues de verdade. Durante muitos anos a França lançou catálogos novos, levava muitos artistas americanos para festivais, mas o Brasil deu uma subida muito boa nesse ponto e temos músicos muito bons para podermos aproveitar e colocar no festival. Esses americanos que estão vindo são uma atração, mas também é bacana por terem esse contato com músicos do interior do Rio Grande do Sul. O Headcutters realizou uma turnê pelos Estados Unidos há pouco tempo e a Sara Delallo foi com a Bex Marshall, uma inglesa que veio ao Brasil, levou ela para 40 shows pela Europa. O nível dos músicos brasileiros está aumentando e isso não tem preço, está muito bom.

O Best of Blues eu fui em uma edição, que teve Taj Mahal e Buddy Guy, foi o dia mais blues de todos. Nosso festival tem na quinta um pouco mais de rock, é aquele que “fugimos” um pouco e abrimos esse espaço para outros estilos. Nós já trouxemos o Marcelo Nova, aqui do Rio Grande do Sul a banda Vera Loca, mas focamos no blues, o trabalho deles tinha isso. Esse ano na quinta quem vai fechar é o Baia, um cara que é considerado o Novo Raul. Ele fez um projeto chamado Toca Raul com o Rick Ferreira, guitarrista do próprio, e tem uma ligação com o blues, no palco principal. Será a celebração de abertura com o Bob Stroger, que vem para cá com seus 90 anos e tocou baixo em praticamente todos os períodos do blues. Fernando Noronha também vem com o Black Soul em uma mistura de blues com folk.

Não vejo nada de errado em festivais colocarem músicos que não são de blues, é uma opção que se tem. Muita gente pergunta se no aniversário de dez anos traremos o Buddy Guy e é muito interessante o Best of Blues traga esses nomes. Nosso foco é diferente, nós fazemos uma pesquisa para buscar alguns desses artistas de enorme talento, mas que não estouraram comercialmente. Acredito que nosso trabalho é trazer revelações e, nas devidas proporções, fazer como o Ry Cooder, que foi para Cuba encontrar esses talentos que tocavam na rua. Nós trouxemos nomes do delta do Mississipi que saíram dos Estados Unidos uma ou duas vezes e acharam demais essa experiência aqui. Queremos inclusive lançar shows desses artistas quando tocaram no festival com nosso selo.

O blues e o público jovem
Toyo: Aqui em nosso evento os pais têm levado suas crianças porque até 12 anos a entrada é gratuita. Isso está criando uma cultura nova e as crianças estão se acostumando desde cedo a participar dos grandes eventos. O guitarrista da nossa banda leva a filha dele ao evento desde os 2 anos. Ela está com 11 e fica perguntando durante o ano quando será realizado o festival.

Não acho errado que não toque no rádio esse tipo de som, aquilo é algo que vai chegar aos ouvidos das pessoas de qualquer forma e música como o blues é mais difícil se a pessoa não buscar, então como a cidade respira o gênero nesse período o MDBF ela se torna um ponto de encontro onde os pais também levam as crianças porque o clima do evento é esse. Existe uma preocupação com a segurança porque fazemos um festival para todas as idades. Às vezes existem 3 ou 4 gerações de uma família dentro do festival e isso não tem preço para nós.

Nós estamos buscando e incentivando as pessoas a ouvir esse tipo de música. Nós temos uma banda que quando começou a tocar no bar tinha algumas crianças que iam lá acompanhar. Hoje uma delas está lançando um disco de blues pelo nosso selo. Esse é o retorno que esperamos!

É uma equipe que trabalha o ano inteiro através de uma instituição sem fins lucrativos que fomentou todos os ingressos. Temos uma parceria com a prefeitura da cidade que nos libera o lugar e todos os outros recursos temos que buscar através de bebidas e souvenires. É um processo difícil, com a crise do último ano não foi fácil e nós não queríamos baixar o nível do evento e mesmo com o aumento do público nós tivemos um gasto maior. Esse ano vários festivais cancelaram suas edições e cogitamos segurar ela mesmo com esse perigo. De repente pegamos um dia de chuva e não conseguimos pagar tudo, mas a equipe foi lá, decidiu trabalhar, pensou positivo e mesmo com a dificuldade de conseguir novos patrocinadores nós seguimos. Temos nossos parceiros, continuamos firmes e vai dar tudo certo.

Quem está acostumado a ver todos as edições vai se surpreender com essa edição com certeza!

Um festival fora do eixo RJ-SP
Toyo: É bem interessante para nós que somos do interior do Rio Grande do Sul. Nós não tínhamos empresas e estrutura quando fizemos a primeira edição do festival. Aí Porto Alegre era nosso caminho no início, mas nossa cidade está se profissionalizando muito com esse evento. Detalhes como lavatórios de mão são conquistas que você consegue para um festival.

Nós temos a Festa da Uva aqui em Caxias, que é uma festa grande e tradicional da cidade, bastante popular, e com nosso evento várias empresas viram que podiam investir. Isso está acontecendo em várias cidades onde o blues chegou com festivais. No Ceará temos um que acontece no período do Carnaval e eu gostaria muito de ir, mas sempre nessa época realizamos aqui nosso Carnaval de New Orleans, o Mardi Gras. O de Rio das Ostras é outro que destaco, mas que acabou não acontecendo esse ano. São diversos eventos que acontecem e que proporcionam roteiros temáticos. Aqui no Sul as pessoas podem conhecer toda região serrana aproveitando o festival.

O evento começa às 18h e as pessoas têm um tempo bom para conhecer os lugares. Com o público de fora da cidade nós fazemos um Blues Tour que leva as pessoas para pontos turísticos da cidade e de cidades próximas. Cada parada tem um processo de degustação em uma vinícola e termina nos morangos hidropônicos com uma sobremesa. E em cada lugar uma banda tocando. Ano passado na cidade perto daqui, Flores da Cunha, você podia ver todos os parreirais com o Big Gilson tocando durante a degustação de vinho. Esse Blues Tour é incrível. Tínhamos um micro-ônibus no início, depois um maior e agora é provável que tenhamos que colocar dois. E tudo é feito com um valor acessível porque tem o apoio da secretaria de turismo daqui e das cidades vizinhas.

Futuro e estrutura
Toyo: Ano que vem, com dez anos, a única coisa que temos certeza é que faremos um livro de fotos com tudo o que se passou nessa década. De projeção para dez anos.... acho que nos cobram às vezes uma superação, mas é algo complicado dependendo de como se vê isso. Nós estamos com um espaço muito grande, poderíamos tentar ampliar isso, mas não é nossa ideia. Para dimensionar toda questão de segurança e continuar sendo um evento familiar com um formigueiro humano nós queremos uma circulação tranquila, o que limita a 3500 pessoas por dia e incentiva o público local também a sempre ir. Aqui temos uma preocupação muito grande para que todas as pessoas possam se proteger de uma chuva, algo que não acontece no exterior. Acreditamos que se o festival conseguir esgotar os três dias está ótimo para nós! O evento sempre terá mantida a sua qualidade. Essa forma é a ideal para nós e existe formato para outros festivais crescerem. Há pessoas que estão viajando pelo país para isso e é bom que cada vez mais façam para que incentivem a seguirem em frente.

A música passa por aqui.

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