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Entrevista FABIO BRAZZA

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Fabio Brazza sabe bem o que é rap. Não, não só isso. Fabio Brazza sabe bem o que é música brasileira e deixa isso mais do que claro em Tupi, or Not Tupi, álbum que tem seu título inspirado no manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, que reafirmava a cultura brasileira pela deglutição da cultura do colonizador.

Dito isso, o trabalho de Fabio não é só rap, mas também não é só rock ou pop. Estamos falando de sons de roda de capoeira, berimbau, embolada... de uma enormidade de ritmos que grande parte dos brasileiros tenha tido contato somente nos livros de história.

Artista que vem se destacando pela ousadia em suas rimas, Fabio vem mostrando ao mundo que o Brasil é grande e não só territorialmente. Aclamado pela revista eletrônica "Wondering Sound" um dos 10 artistas que estão reinventando a música brasileira, o rapper conversou com o Passagem de Som sobre seu novo projeto, política e diversos outros assuntos em uma grande entrevista.

A riqueza musical brasileira existente em Tupi, Or Not Tupi
Fabio Brazza: Eu cresci ouvindo música popular e antes mesmo de me apaixonar pelo Rap eu já era um apaixonado pelo Samba. Quando mergulhei no Rap essas misturas com a música popular saíram naturalmente, eu pegava meu cavaquinho e versava, ia às rodas de samba e mandava improviso em cima da batucada. Tupi Or Not Tupi foi uma tentativa “antropofágica” de misturar as variedades de ritmos brasileiros, com a minha vertente poética, que é o Rap. Acho que a gente do Rap copia muito o que vem de fora, mas temos tanta riqueza musical aqui que ainda não foi explorada. Ao meu ver, a tendência é que o Rap se torne cada vez mais uma música popular brasileira e é exatamente isso que pregava a antropofagia de Oswald Andrade, pegar o que vem de fora e transformar em nosso. Algumas misturas do álbum saíram com muita naturalidade como as de Samba com Rap ou a da Embolada com o Rap, já que a embolada é o nosso Rap brasileiro. Outras misturas no entanto foram mais desafiadoras, como a Moda de Viola. Tentei experimentar novas identidades musicais na nossa forma de fazer Rap e acredito que ainda temos muito o que misturar. Esse álbum foi só uma pequena demonstração da imensa possibilidade de misturas que podemos fazer com o Rap.

 Tupi, or Not Tupi no estúdio e no palco
Fabio Brazza: Acredito que 90% do álbum foi feito de forma orgânica. O processo foi muito livre e conforme íamos pesquisando, íamos descobrindo coisas novas. É impressionante o quanto de gêneros musicais maravilhosos que descobrimos nessa pesquisa e me entristece saber que só deu tempo de misturar alguns. Eu não tenho a estrutura hoje de fazer um show ao vivo com banda, só com o DJ, o que faz com que não seja possível cantar algumas músicas ao vivo. Mas com certeza a riqueza musical do álbum traz uma vibe muito pra cima no ao vivo e a diversidade das músicas faz com que o show fique versátil e nem um pouco cansativo! 

 A recepção do público diante de um rap repleto de novos elementos
Fabio Brazza: Eu acho que o Rap é um gênero muito jovem, principalmente no Brasil. Veja bem que o Samba já fez 100 anos de história, enquanto que o Rap é um menino! Lá nos Estados Unidos ele já atingiu o mainstream e quebrou vários desses paradigmas. No Brasil ele esta em processo de evolução e precisa quebrar esses paradigmas, afinal todo gênero que se fecha acaba morrendo, é necessário que nós, Rappers, tenhamos a consciência das infinitas possibilidades que esse gênero nos traz e que saibamos fazer essas fusões com qualidade, assim os preconceitos serão quebrados naturalmente e o Rap alçara voos mais altos.   

 A influência do contexto social em Tupi, or Not Tupi
Fabio Brazza: Morando fora do Brasil eu percebi o quão negativo é esse pensamento do brasileiro de enxergar o seu país e seu povo com pessimismo. Precisamos valorizar as nossas qualidades. Existe um Brasil muito rico em cultura, existe um povo honesto, batalhador e com uma inteligência de fazer inveja em qualquer gringo. O nosso país só precisa investir no seu povo e valorizar o que temos de bom. Se nós só ficarmos vendo a TV nós vamos achar que nosso país é um horror mesmo. Eu acredito que temos muito que melhorar e que o patriotismo cego é também perigoso, por isso valorizo o que nós temos de bom, mas também estou sempre criticando o que temos de ruim. Eu enxergo esse momento turbulento que vivemos de uma maneira positiva, pois pela primeira vez os intocáveis estão sendo alvos de investigação, os políticos estão indo parar na cadeia! Isso é uma coisa nova no nosso país!  O povo também esta se politizando cada vez mais e reivindicando pelos seus direitos. Política virou assunto no boteco, tanto quanto o futebol!  Creio que este momento pode ser um ponto de virada no Brasil, para que a gente faca uma reforma política e conscientize nosso povo da importância de se manter informado e reivindicar quando for preciso. 

 O preço de ser um artista engajado e de opinião
Fabio Brazza: Eu encontro muitos problemas por me posicionar socialmente e politicamente. São assuntos muito controversos e que atraem milhares de pessoas odiosas prontas para usarem o tempo que elas têm para te insultarem. Às vezes perco likes ou inscritos por isso. Não acho que é uma obrigação do artista se posicionar politicamente, até porque o artista tem que estar livre para falar do que ele quiser e não pode se prender a amarras ideológicas, se não a sua arte pode ficar limitada. Eu me vejo como um artista e não como um ativista político, então não é toda vez que preciso ou quero me posicionar, até porque só falar de política é chato, ninguém aguenta uma pessoa que só fala disso. Porém acho que é importante que o artista desafie o seu público a pensar, que ele transmita sentimentos da sociedade em que ele vive e que ele tenha consciência do seu poder de formar opiniões, ainda que ele não queira. A minha vertente artística é de muito viés político e social e tem vezes que eu acho importante me posicionar por aquilo que acredito. Meus maiores ídolos como Martin Luther King, Ghandi e Jesus morreram por expressar suas ideias, no entanto essas ideias transformaram um tempo e sobreviveram até hoje. Eu acredito no poder das ideias como instrumento de transformação social, afinal como o poeta Maiakovski disse “ o artista não só o espelho que reflete o mundo, mas o martelo que ajuda a molda-lo.”  

A presença feminina no rap
Fabio Brazza: Eu vejo com muita alegria essa expansão do Rap em todos os sentidos. O Rap é um gênero democrático e que precisa chegar a mais pessoas. Só o Fabio Brazza ou o Mano Brown não vão conseguir conectar com todos, é preciso de mulheres falando coisas que elas pensam para que seu ponto de vista seja visto, para que a gente seja desafiado a rever nossos conceitos, para que outras meninas por ai se identifiquem e se sintam transformadas por essa mensagem.  Assim a mulher vai trazer pro Rap coisas que estão faltando e que só elas podem ou sabem falar e fazer. Já escutei vários Raps de mina eu pensei “poxa que irado o que ela falou, eu nunca tinha pensado nisso!” Porque mulheres vivem e sofrem coisas diferentes na sociedade do que os homens e quando a mulher consegue transcrever isso numa letra, ela impressiona mais que um cara. Com as mulheres o Rap só tende a crescer, musicalmente e como movimento, até porque festa de Rap ainda tem muito homem e ninguém quer colar em uma festa só com homem! (risos). O Rap precisa urgentemente da beleza e principalmente da inteligência feminina na cena e acho que isso já esta acontecendo.  

Os novos formatos e o revival de antigos conceitos
Fabio Brazza: É complicado porque o CD virou um mero cartão de apresentação e não mais uma mercadoria. Muitas pessoas nem tem mais lugares pra por CD nem no carro nem em casa. Então nós fizemos alguns CDs, mas também disponibilizamos para venda a “camiseta álbum,” aonde as músicas vem em um Pen Drive conectado na etiqueta da camiseta. No entanto o maior meio de divulgação continua sendo na internet pra quem quiser ouvir, tá tudo lá também. O CD ou a Camiseta são mais uma lembrança de quem curte ter o álbum físico. 

 Festivais e o Rap hoje
Fabio Brazza: Eu acho que o underground do Rap deu um Boom muito grande e esse ano vi despontar vários MCs novos e talentosos de todas partes do Brasil. Isso é bom porque o Rap precisa de união e através desses festivais a gente se fortalece como movimento. Se a mídia não quer ouvir o Rap de qualidade, ainda tem quem queira e é só a gente se unir que a gente vai descobrir que os amantes de Rap e os MCs bons, estão por toda parte!

 Futuro
 Fabio Brazza: Para começo do ano que vem vou lançar um EP com 6 músicas e um poema. Também vou lançar meu livro com algumas poesias e pensamentos que acabei de terminar de escrever. Espero focar meu ano de 2017 para desenvolver minha arte e focar com tudo no RAP. Quem sabe além desse EP não saia mais um álbum também? Música é o que não falta! 

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