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Eric Clapton - I Still Do

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No auge dos seus 71 anos, repleto de feridas e agraciado com um dom que poucos no mundo tem, Eric Clapton não tem mais nada a provar no mundo da música. Se por um lado há algum tempo questiona-se a relevância de seus álbuns, por outro é nítido que precisamos mudar nosso olhar sobre o trabalho de um guitarrista que já atendeu pela alcunha de “Deus” e deixou sua obra ausente de um nível que possa ser classificado como “menos que incrível”.

Em seu 13º registro solo, I Still Do, Clapton se envereda novamente pelo caminho que já vem trilhando há pelo menos duas décadas. Deixa clara a reverência ao blues americano, sua maior influência, nítida na ótima Alabama Woman Blues, e como isso moldou o blues inglês, o que percebe-se em Can't Let You Do It, faixa que poderia muito bem aparecer em algum disco do conterrâneo John Mayall. Dito isso, o que se tem em mão é um álbum que impressiona até mesmo àqueles – hereges – que davam a carreira de Clapton como estagnada e decadente.

Composto por 12 belíssimas faixas e produzido pelo amigo de longa data, Glyn Johns (Rolling Stones, Led Zeppelin, Hendrix...), o que se vê em I Still Do não difere do que Clapton já vinha fazendo em seus últimos álbuns, em especial o bom Old Sock (2013), mas existe uma carga de emoção tão enraizada em cada acorde que a única vontade durante toda sua audição é desejar estar diante de uma estrada tranquila e sem imprevistos, o que nesse caso significa uma música do mais alto nível.

Cada vez mais sereno e alheio a qualquer tendência, Clapton acerta em cheio com faixas como Spiral, mergulhando cada vez mais fundo no que de melhor existe em sua obra. Sem investir na melancolia do blues, exceção feita à Catch The Blues, apresenta o lado mais brilhante de um gênero repleto de cicatrizes, ainda que não empolgue a ponto de flertar com o blues de Chicago.

Uma das peculiaridades de I Still Do talvez seja justamente sua capacidade em flertar com vertentes que “tocam” ainda mais fundo a alma de Clapton e de seu ouvinte. O soul em especial merece destaque em um disco que arranca para sua reta final com uma sequência desconcertante. I'll Be Alright, ponto mais alto de um disco do mais alto nível, é a prova disso. Entre os caminhos do gospel e do soul, Clapton apresenta um trabalho tão tocante que é capaz de emocionar a todos que não tem um coração de pedra.

Existe uma leveza não vista há tempos no trabalho do guitarrista inglês que pode ser sentida em faixas como Little Man, You've Had A Busy Day, onde o título da música fala por si só. É talvez nesse momento em que percebe-se a longevidade de Clapton e sua reflexão acerca de tudo. Lançado antes da divulgação de seus problemas de saúde, I Still Do faz ainda mais sentido e evoca um lado da carreira do guitarrista que nunca gostaríamos de ver, que é o seu fim.

Considerando a gravidade da situação explanada pelo guitarrista, não é difícil pensar que I Still Do pode realmente ser seu último álbum. O sentimento de que um ídolo da cultura pop parece extrair de seus braços as últimas forças para um grande álbum faz de suas duas últimas faixas, Somebody's Knockin' e a sugestiva I'll Be Seeing You, um suspiro de agradecimento de um guitarrista que conseguiu fazer de tudo na vida. E escreveu seu nome dela de um jeito que nenhum livro de história poderá apagar.

Disco feito sob medida para figurar entre os melhores do ano, I Still Do pode não sobrepujar os clássicos absolutos da carreira de Clapton, mas está ali, lado a lado a algumas das obras que moldaram o blues e o rock nos últimos 60 anos. Não saberemos se Clapton encontrará forças para um novo álbum. Em 2016 sua obra grita “eu ainda faço”, chegou a hora de reverenciarmos sua história e torcer para que continue fazendo. A música agradece.

A música passa por aqui.

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