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Fats Domino - O adeus do homem que morreu duas vezes

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Um dos pioneiros do rock, Fats Domino deu adeus ao mundo em que fez história de forma discreta. Tão discreta que suas virtudes parecem ter ficado em um passado distante, obrigando a um artista que revolucionou a cultura pop a morrer duas vezes para ser lembrado no futuro.

Um dos grandes heróis do mundo do rock, o lendário músico americano Fats Domino encerrou sua incrível trajetória no último dia 24 de outubro, falecendo de causas naturais aos 89 anos. Ídolo supremo de uma enormidade de artistas considerados seminais, Domino emergiu musicalmente em uma época onde a segregação racial era tão explícita quanto chocante e ainda assim conseguiu aproximar o público através da música.

Para se ter uma ideia, em sua biografia Blue Monday: Fats Domino and the Lost Dawn of Rock´´n´Roll, escrita por Rick Coleman e lançada em 2005, o autor conta que os grandes tumultos causados nos shows de Domino aconteciam justamente pela presença de álcool, dança e raças em um único lugar. Era a primeira vez que o rock and roll mostrava de vez a sua cara.

Nascido na pequena Harvey, uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes na pequena Louisiana, Fats Domino teve em vida o roteiro de boa parte dos grandes nomes do blues. Infância pobre, preconceito e amor pela música. O aprendizado pelo piano através de um músico mais experiente, no caso Billy Diamond, o contrato com uma gravadora e a ascensão até a personificação do espírito do rock na virada do século.

Prática comum na época, viu uma enormidade de faixas de sua autoria ganharem um estrondoso sucesso, mas ainda assim chegou a liderar com folga a lista de discos mais vendidos nos anos 50. Na época chegou a realizar cerca de 355 shows por ano para dar conta da demanda por sua música. Criou clássicos como Blueberry Hill e Ain't It A Shame e deu forma ao gênero que logo teria Elvis Presley como seu Rei.

Durante os anos que e seguiram, o próprio Elvis nunca escondeu a paixão que tinha pelo trabalho de Fats Domino, afirmando abertamente que nunca começou com o rock e nunca cantaria com o mesmo vigor e talento que seu grande ídolo.

Já nos anos 60 a carreira de Fats Domino ocupava lugar discreto nos charts americanos. Assinou com a Mercury Records, por onde pouco fez, recuperando novamente a autoestima já nos anos 70, quando pela Reprise Records emplacou uma música nas paradas, no caso um cover de Lady Madonna, dos Beatles. Era uma época em que pouca coisa lembrava a histeria do início da segunda metade do século, mas nem de longe era o fim da carreira do pianista americano.

O reconhecimento por sua obra aconteceria já nos anos 80, mas não do jeito que se imaginava. Já restringindo seus shows somente aos palcos de New Orleans, recusou-se a comparecer a uma cerimônia do Grammy, onde receberia uma homenagem pelo conjunto da obra, foi quando “mataram” Fats Domino pela primeira vez, ali artisticamente. Era visto pela cidade sempre ao lado de seu Cadillac pink, marca registrada de um período de glórias.

Fez parte de uma primeira leva de artistas que ocupa o Rock and Roll Hall of Fame e chegou, inclusive, a receber uma medalha do presidente Bill Clinton, quando se apresentou na Casa Branca. Um negro na Casa Branca. Foi a última vez que realizou uma turnê.

Esse marco na carreira de Fats Domino se repetiria posteriormente com Chuck Berry, que também deixou claro o tamanho da honraria e a decisão de abandonar os palcos, ainda que isso não acontecesse com nenhum dos dois.

Mesmo ignorado em um contexto global, Fats Domino se manteve firme ao princípio de se apresentar somente em New Orleans, quando encarou um dos maiores desafios de sua vida... o furacão Katrina.

Sem abandonar a esposa, que na época sofria de problemas de saúde, permaneceu em casa enquanto a cidade encarava o seu pior pesadelo, foi resgatado de helicóptero quando a região alagou e perdeu tudo. Morou de favor e dormiu em sofás na casa de JaMarcus Russell, um famoso quarterback da Universidade da Louisiana, até retornar para a pequena Harvey e assistir a reconstrução da cidade.

Voltou a ser destaque em um tributo estelar com nomes como Elton John, Neil Young, Tom Petty, Robert Plant, Willie Nelson, Norah Jones, Lenny Kravitz e Lucinda Williams, que teve como objetivo arrecadar fundos para seu retorno a New Orleans.

Na cidade que o acolheu e que escolheu viver seus últimos dias, Fats Domino recebeu todas as honrarias que um artista pode receber. Patrimônio da cidade, chegava a figurar no line up do tradicional festival NO Jazz, algo que por vezes não se concretizava ao vivo por seus problemas de saúde, mas sempre marcava presença nos palcos assistindo aos shows de artistas de um novo tempo.

O dia de 24 de outubro de 2017 sacramentou a segunda morte de Fats Domino. Poderiam ter sido muitas outras, em um furacão ou pelo desdém de quem pavimentou uma estrada, mas sempre havia algo que mantinha um dos pilares do rock de pé, duro como uma rocha. Influência daquele que é considerado o Rei do Rock, Fats nunca escondeu sua importância em entrevistas. "Eu não diria que fui eu quem comecei com o rock, mas não lembro de ninguém antes de mim que tocava esse tipo de coisa", declarava.

Mais do que o primeiro ou o segundo, Fats Domino, assim como tantos outros, será reconhecido como um pilar da estrutura fundamental do rock. Foi embora como alguém tímido, acostumado com o anonimato, mas lá dentro, bem lá no fundo, ele sabe que foi um dos maiores de todos. Nós também.

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