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Wynton Marsalis e as lições da Lincoln Center no Brasil

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Em uma turnê que durou pouco mais de dez dias, o lendário trompetista americano Wynton Marsalis mostrou ao povo brasileiro que jazz e democracia caminham lado a lado, mas, mais do que isso, escancarou o quanto estamos distante do núcleo mais nobre de nossa própria cultura.

Quando pensamos em um legado familiar na história do jazz, irremediavelmente pensamos na família Marsalis, iniciada ainda nos anos 50 com o patrono da família, o pianista Ellis Marsalis Jr, vivo até hoje, com seus 84 anos.

Foram seis filhos ao longo da vida, Branford Marsalis, Wynton Marsalis, Ellis Marsalis III (1964), Delfeayo Marsalis, Mboya Kinyatta Marsalis (1971), e Jason Marsalis. Dos seis citados apenas Ellis não seguiu os passos do pai, se tornando uma fotógrafa de sucesso e profissional do ramo de tecnologia. Já o restante dos músicos é difícil não associar a um palco e a uma técnica apurada.

Donos de carreiras irrepreensíveis, os Marsalis conhecem bem o sangue que corre em suas veias. Não é só gênero musical ou a preservação do nome da família, mas uma estética de jazz que resiste fortemente ao tempo e que é guardada como um verdadeiro tesouro por cada membro da família.

Wynton Marsalis leva isso extremamente a sério, tão a sério que controle com mão de ferro a Lincoln Center Orchestra, verdadeiro patrimônio de uma organização de artes cênicas na cidade de Nova York. Criada a partir da morte do lendário Duke Ellington, em meados dos anos 70, a Lincoln Center teve como seus primeiros membros a própria banda de Duke, que seriam comandados diretamente pelo trompetista.

Por tudo o que a envolve, a Lincoln Center carrega consigo uma atmosfera tão religiosa que seus concertos são verdadeiros rituais no mundo do jazz. Ter a chance de ver músicos tão talentosos recrutados a dedo e dispostos a preservar uma história de décadas não é qualquer coisa. E por algum milagre do destino, a Lincoln Center Orquestra veio parar no Brasil nas últimas semanas, realizando uma série de concertos que se encerraram no último domingo (30/julho) no SESC Parque Dom Pedro, no centro de São Paulo.

Não eram só concertos tradicionais, mas aulas, com direito ao “professor Wynton” acompanhado de uma intérprete 100% do tempo explicando cada movimento, cada faixa. Uma experiência definitivamente única. Os concertos passaram por uma série de unidades do SESC durante dez dias, dando a possibilidade do público estar REALMENTE perto de seus membros, assim como de seus convidados.

Durante o período em que esteve no Brasil, Wynton e sua orquestra estiveram acompanhados de alguns músicos brasileiros. Virtuose do bandolim, Hamilton de Holanda foi um deles. O versátil percussionista Ari Colares foi outro, além de outro fera, Nailor Proveta. Entre os nomes homenageados, chamou também a atenção do público a paixão da Lincoln Center pelo pernambucano Moacir Santos, maestro e multi-instrumentista falecido em 2006.

De acordo com Wynton, em entrevistas aos mais diversos canais de grande expressão do país, as escolas do ensino médio deveriam ter uma matéria chamada Moacir Santos. Concursos deveriam ser criados com seu nome. Mais do que isso, seu olhar no palco ao acompanhar a performance de seus convidados brasileiros só engrandecia o legado da música brasileira ao longo de sua história.

Duke Ellington, inspiração máxima da Lincoln Center, teve uma faixa sua usada no encerramento das apresentações, Brazilliance. Composta durante a solitária passagem do lendário jazzista pelo país, em 1968, Brazilliance tinha como inspiração a buzina dos fuscas que impressionaram Duke no louco trânsito de São Paulo, mas tem como principal característica sua levada, um baião inspirado.

Durante as apresentações no brasil, Wynton disse não saber como Duke havia aprendido esse ritmo, mas basta ligar os pontos para entender. Era o auge da construção civil em SP. Trabalhadores nordestinos em peso abandonando suas terras e tentando viver seu sonho de crescimento na cidade. O contato com o ritmo certamente se deu pelas aventuras de Duke pela cidade, que adorou conhecer. Foi nesse ano que Latin American Suite, um de seus álbuns mais impressionantes, começou a ser produzido. A música estava nas ruas.

Voltamos para o presente. Wynton Marsalis maravilhado com os músicos brasileiros e diante de um razoável (sim, podia ter sido muito maior) público no SESC Parque Dom Pedro. Em especial na apresentação que encerrou todo esse ciclo pelo país, a Lincoln Center Orchestra reverenciou de tal forma a música brasileira que parece ter escancarado de vez como o jazz é popular, na mais plena definição da palavra. E existe, mesmo que inconscientemente (torcemos para que seja assim), uma luta para forçar o contrário.

Hamilton de Holanda é considerado um dos maiores músicos do planeta. Nailor Proveta um ás de diversos instrumentos de sopro, assim como Ari Colares, uma percussão humana. Ainda houve espaço para o cantor, acordeonista e compositor Mestrinho, que fora convidado de última hora, ainda realizou um BIS com Wynton e seu irmão, o baterista Jason Marsalis. Uma celebração da música em seu estado mais puro. E melhor, DE GRAÇA.

Para uma parte do público que compareceu aos concertos da Lincoln Center no Brasil, passar a conhecer o trabalho de alguns dos artistas citados nessa matéria é um caminho natural, mas sabemos que não é bem assim.

Muitas vezes artistas como Hamilton de Holanda ou Nailor Proveta são impossibilitados de lançar nas casas da cidade seus projetos particulares pela falta de interesse de um público. Isso passa por um processo de divulgação e interesse da mídia e produtores, mas principalmente do público.

E não basta se resumir e esses artistas, de Amaro Freitas a Amilton Godoy e seu espetacular legado ao lado do Zimbo Trio, o interesse não é despertado nem mesmo com o raro acesso a shows de tais artistas. Na contramão disso, quando o interesse acontece, normalmente se dá em espaços de difícil acesso na cidade, especialmente na questão financeira.

Existem shows que mudam vidas. É através deles que as pessoas se inspiram a tocar guitarra, saxofone ou até a buscar sem papel como produtor ou no backstage. No caso do jazz, tornar uma vertente tão inacessível como vem acontecendo é pura segregação e mumificação do estilo. Por isso, ter a chance de ter acompanhado a Wynton e seu grupo de uma forma tão fácil deixa uma mensagem muito importante. Poderíamos ter nossa própria Lincoln Center (e já temos, vide exemplos incríveis como a Orquestra Tabajara) e não percebemos.

Precisamos aprender o que fazer com isso. Ou então esperaremos turnês esporádicas de ícones pelo Brasil para perceber o talento de uma enormidade de artistas que passaram a vida toda tentando chamar a atenção do grande público e não conseguiu.

Viva a música brasileira. Viva a popularidade do jazz.

A música passa por aqui.

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