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Buddy Holly e o dia em que a música morreu

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Nos últimos anos tornou-se comum falar sobre alguma banda ou artista capaz de “salvar o rock”, ainda que o gênero jamais tenha precisado de alguém para salvá-lo algum dia. Ao contrário de buscar um salvador para uma causa inexistente, ainda é desconhecido de grande parte do público o talento de Buddy Holly, Ritchie Valens e J. P. "The Big Bopper" Richardson, músicos responsáveis por um dos momentos mais tristes da história do gênero, ou como definiria Don McLean posteriormente, o dia em que a música morreu.

O ano era 1959 e o rock vivia um de seus períodos de maior ebulição, ainda como um verdadeiro adolescente celebrando sua rebeldia e conquistando o mundo gradualmente. Influenciado pelo blues, o folk e a música gospel, o gênero já consagrava artistas como Little Richard, Chuck Berry e Elvis Presley, que seriam responsáveis por dar forma ao que hoje chamamos de rock and roll.

PJ Big Bopper, Buddy Holly e Ritchie Valens - Créditos: Divulgação

Um dos nomes mais emergentes da época era Buddy Holly, músico do Texas que começou a ter contato com a música graças à influência dos pais, grandes apaixonados pela música country. Logo cedo Buddy já havia aprendido a tocar violino, piano e guitarra, ganhando sua chance de ouro quando realizou a abertura de uma apresentação de Bill Halley e assinou contrato com uma gravadora.

O sucesso começou a acontecer quando músicas como Peggy Sue e Not Fade Away começaram a arrebanhar um público cada vez maior. O talento como guitarrista o colocaria rapidamente em um patamar ainda mais alto, se tornando um dos maiores nomes da década devido a sua qualidade harmônica e seu comportamento. A importância de Buddy também iria além de seu talento com a música; em meados da década de 50 o guitarrista foi um dos primeiros nomes a reduzir a distância entre negros e brancos, fator que ainda gerava muita tensão na época. Com a banda The Crickets chegou a realizar apresentações na Inglaterra, onde sua música influenciaria nada menos que Paul McCartney, que até hoje diz ser um dos maiores fãs do artista.

Em paralelo a isso, Ritchie Valens, um descendente de mexicanos nascido em Los Angeles, comprava sua primeira guitarra aos 15 anos e formava o Satellites, grupo formado por dois negros, um americano de ascendência mexicana e um de origem japonesa, tudo isso no auge do movimento rockabilly.

Ritchie só viria a conquistar o público quando foi descoberto por Bob Keane e lançou Come On Let's Go, já trilhando seu caminho como artista solo. Em 1958, quando participou do filme Go Johnny Go, Ritchie Valens lançaria seus dois maiores clássicos, a balada Donna e a canção tradicional mexicana, La Bamba, eternizada em sua voz e gravada pelo grupo Los Lobos durante a trilha do filme homônimo.

Outro nome emergente, mas que, infelizmente, não teve a oportunidade de mostrar muito de seu trabalho foi J. P. Richardson, conhecido como Big Bopper e responsável pelo clássico do rock Chantilly Lace.

Atuante como DJ em rádios e festas, Big Bopper tinha o verdadeiro comportamento de um rockstar e, ainda que não tivesse outro sucesso comercial, era certeza de grandes públicos.

Cartaza de divulgação da Winter Dance Party - Créditos: Divulgação
Cartaz de divulgação da Winter Dance Party - Créditos: Divulgação

A vida desses três nomes se cruzou durante a The Winter Dance Party, turnê que atravessaria 24 cidades americanas em apenas três semanas. Em uma época onde a indústria do entretenimento não tinha a real noção de seu tamanho, a logística se tornou uma das maiores inimigas de um músico, ainda mais em uma época onde o mau tempo colaborava para uma dificuldade ainda maior para que a turnê acontecesse.

O caos da turnê já havia feito algumas vítimas durante os primeiros shows. Carl Bunch, baterista de Buddy Holly, desenvolveu um caso grave de congelamento nos pés após uma falha no sistema de aquecimento do ônibus que transportava os músicos, tendo de ser internado em um hospital. Durante esse período o próprio Holly e Ritchie Valens revezavam-se na bateria.

O inverno rigoroso vinha comprometendo toda logística e, para completar, um show em Iowa foi incluído na turnê, o que obrigou Buddy Holly a decidir por uma viagem de avião até Moorhead, no estado do Minnesota, adiantando a viagem. Já sem roupas limpas, com um inverno rigoroso e extremamente cansados, a única preocupação dos músicos sempre foi atender ao público, não importa o estado em que estivessem.

O voo para Moorhead foi agendado com um piloto chamado Roger Peterson, funcionário de apenas 21 anos da Dwyer Flying Service. A viagem incluiria a presença de mais dois passageiros em um modesto avião Beechcraft Bonanza modelo B35, fabricado há pouco mais de dez anos do acidente.

A priori, Buddy Holly seria acompanhado de Waylon Jennings e Tommy Allsup, músicos de sua banda, algo rotineiro, mas o que se seguiu a partir daí uma série de curiosidades que culminaria na união de três dos mais envolventes nomes da década para aquele que seria o último voo de suas vidas.

Big Bopper havia contraído uma gripe e pediu a Waylon que fosse em seu lugar. Em tom de brincadeira Holly ainda brincou com a situação dizendo ao músico de sua banda “Espero que seu ônibus velho congele”, enquanto Waylon respondia “E eu espero que seu avião velho caia”. O peso dessas palavras assombraria o cantor por décadas, até sua morte em 2002, ainda que nesse período Waylon viesse a se transformar em um dos maiores nomes da música country.

Já Ritchie Valens sempre havia manifestado seu medo de avião, mas não via outra forma de chegar rapidamente em Moorhead e pediu seu lugar para Tommy, que só daria o assento caso Valens ganhasse em uma disputa de cara ou coroa. Foi Bob Hale, radialista da KRIB-AM, quem decidiu a sorte de ambos e colocou Ritchie com o último lugar da aeronave.

Já era madrugada quando o avião decolou. A temperatura baixa e a falta de visibilidade foram a combinação perfeita para que o piloto, Roger Peterson, tivesse problemas para operá-lo por instrumentos. Seu último contato foi às 03h30, quando a aeronave foi dada como desaparecida.

Pela manhã a empresa Dwyer refez a rota que Peterson havia planejado e encontrou os destroços do avião próximo a um milharal. Os corpos de Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper foram encontrados distantes do local do acidente, enquanto Peterson havia permanecido preso à cabine da aeronave. Não havia sobreviventes.

O laudo final do acidente acusava uma falha nos equipamentos do avião, que aliados à inexperiência do piloto e a dificuldade de visibilidade, fizeram com que ele caísse em uma plantação. Todos os músicos e a tripulação tiveram morte instântanea e, até o momento do rápido impacto, devido aos problemas no avião, sequer souberam que estavam descendo.

Os efeitos dessa tragédia foram muito bem definidos na música de Don McLean, American Pie, em 1971, quando afirma “I can't remember if I cried / When I read about his widowed bride / But something touched me deep inside / The day the music died (“Eu não consigo lembrar se eu chorei / Quando eu li sobre a viúva dele, mas algo me comoveu profundamente, foi o dia que a música morreu.”).

O legado de cada um dos artistas envolvidos na tragédia são incalculáveis e a quantidade de artistas influenciados por Ritchie e Buddy ultrapassam a barreira do próprio rock, sendo possível fazer uma lista imensa de devotos da classe e atitude de ambos; assim como o eterno clássico de J. P., evocado cada vez em que uma conversa sobre a história do rock relembra seus pioneiros.

O rock nunca vai precisar ser salvo de nada, afinal, não existe a menor possibilidade de que ele corra o perigo de desaparecer, mas por um único dia o ele morreu. Morreu e renasceu com um legado que influenciou gerações e carrega até hoje o nome de Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper como um dos seus maiores representantes.

A música passa por aqui.

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