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Vangelis vai ao espaço

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Artista que conseguiu como poucos fazer de sua música a plataforma fundamental das mais diversas experiências, o grego Vangelis redefine o conceito de álbum conceitual no século XXI ao recriar a saga da sonda Rosetta, seguramente uma das mais ousadas e bem-sucedidas experiências do ser humano em sua relação com o espaço.

Talvez você não o conheça pelo nome artístico, mas a história de Vangelis fatalmente está intimamente ligada com a sua. Responsável por temas e trilhas que marcaram época, o grego Evángelos Odysséas Papathanassíu é sem sombra de dúvidas um dos maiores artistas do século XX ao lado de cultuados nomes da cultura pop como David Bowie, John Lennon, Lou Reed... ao seu jeito.

Responsável por trilhas sonoras marcantes como a do filme Carruagens de Fogo (1981) e Blade Runner (1982), Vangelis também teve sua música ligada a uma relação infindável de programas de TV nos quatro cantos do mundo. No Brasil – só para se ter uma ideia – deu vida à abertura do “Xou da Xuxa” e do Troféu Imprensa, exibido pelo SBT.

Transitando entre universos distintos como o neoclássico e a música eletrônica, a carreira de Vangelis já surpreendia muito antes de seu trabalho solo, quando integrava ao lado do conterrâneo e lendário ícone do pop Demis Roussos o Aphrodite's Child, com quem lançou três álbuns, um deles o seminal 666 (The Apocalypse Of John,13/18), de 1972, pérola do rock progressivo.

Mesmo com boa recepção, o lançamento de 666 acabou se tornando um ponto de referência na carreira de Vangelis, que já via Demi Roussos dar início a uma bem-sucedida carreira solo. Nessa época o multi-instrumentista grego já tinha seus primeiros contatos com a sonoridade que viria a consagrá-lo.

Atuando em parceria com o cineasta francês Frederic Rossif, de clássicos como Morrer em Madrid (1963) e Tão Longe do Amor (1971), já levava seu talento além do rock progressivo da época e lançou em 1974 seu primeiro disco solo, Earth. O que pouca gente sabe é que nessa época Vangelis chegou a participar de audições com os ingleses do Yes, o que acabou não se concretizando.

O sucesso chegou rápido, quando assinou com a RCA Records e se mudou para Londres. Abusando cada vez mais dos elementos de krautrock e da cada vez mais evidente ascensão de elementos eletrônicos, criou seu próprio estúdio, o Nemo. Nele produziria faixas do aclamado Heaven and Hell, disco que acabou servindo de base para a trilha sonora da série de ficção científica Cosmos, de Carl Sagan e sua esposa Ann Druyan.

Dali em diante tudo mudou. Passou a existir uma tônica em tudo o que Vangelis viria a fazer durante as décadas que sucederam seu primeiro sucesso comercial. Explorando texturas e levando sua música a um patamar cada vez mais alto, cada disco do artista grego se elevaria a uma experiência sinestésica agraciada pelos bons recursos em vídeo e sua capacidade em realizar trilhas sonoras. Mesmo sem abandonar o rock progressivo que o lançou para o mundo e de onde até hoje celebra uma intensa amizade com Jon Anderson, ex-Yes, Vangelis se transformou naquilo que os olhos podem ouvir, literalmente.

 A ligação com a natureza e tudo aquilo que o circula permearam vários de seus lançamentos nos anos seguintes. Trabalhos como Antarctica (1983), The City (1990) e Oceanic (1996) são bons exemplos de um artista em conexão com seu mundo.

As referências neoclássicas, de new age, ambient e música eletrônica, além de toda a facilidade em estúdios levaram o trabalho de Vangelis a um nível mais alto, ainda que tamanha complexidade o colocasse alheio ao mainstream. Mesmo sendo considerado um dos maiores artistas de todos os tempos, o grego sempre abominou a interação virtual e hoje, no auge de seus 73 anos, segue uma rotina dedicada à arte que permanece alheia ao universo pop.

Lançando apenas trabalhos pontuais – o que inclui a readaptação de Carruagens de Fogo para os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012 –, Vangelis parecia ter entrado de vez em um caminho que o conduziria de forma definitiva à aposentadoria. Ledo engano.

Sem muito alarde, lançou em 2016 um dos melhores trabalhos de sua carreira, o ótimo Rosetta, disco que conta a história da sonda espacial construída e lançada pela Agência Espacial Europeia com a missão de percorrer o espaço e fazer um estudo detalhado de um cometa.

Lançado com todos os recursos disponíveis em estúdio e a maturidade de um artista que desbravou tudo o que a música poderia proporcionar em sua essência, Rosetta não é só um disco, mas um livro de experiências transformado em álbum musical.

Composto por 14 faixas milimetricamente trabalhadas, conta a história da sonda lançada em 2004 e todo caminho que a conduziu como um dos mais impressionantes e bem-sucedidos experimentos da humanidade em sua busca pelo conhecimento do universo.

Não é necessário um livro, mas apenas uma busca na Wikipedia ou qualquer site de revista científica do mundo para entender tamanha importância. Lançada há 12 anos, a sonda Rosetta adentrou o espaço na missão de pousar sobre o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, que orbita entre a Terra e Júpiter, afim de fornecer informações detalhadas de toda sua estrutura. O título do disco e da sonda fazem referência à pedra cujo texto em sua face foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios.

O caminho até essa conquista é que impressiona. Foram necessários dez anos até que a Rosetta encontrasse o 67P/Churyumov-Gerasimenko. Nesse período a sonda orbitou o sol por 5 vezes e realizou dois sobrevoos por asteroides e em Marte, de onde enviou imagens e dados de sua superfície.  Depois disso foi desligada durante 31 meses até que atingisse o ponto correto para se acoplar ao cometa. Quando religada pelo centro de comando levou mais alguns meses até se desacoplar de parte de sua estrutura e pousar em seu destino. A missão da Rosetta encerrou-se 18 meses após seu pouso no 67P/Churyumov-Gerasimenko, enviando ao planeta dados que desde a passagem do Cometa Halley, em 1986, intrigavam a toda comunidade científica.

Baseado em toda essa epopeia espacial, Vangelis construiu Rosetta e o resultado beira o impressionante. Um filme sem vídeo. Um disco sem música funcionando como uma trilha sonora de um fato específico onde é possível perceber cada fase da saga da Rosetta durante sua execução.

Trabalho conceitual de um artista que há décadas veste esse tipo de atmosfera para dar forma aos seus lançamentos, Rosetta consegue passar todas as sensações sem o suporte do vídeo, elemento que tanto ilustrou o trabalho do grego nos últimos 50 anos. Registro de um artista que aprendeu a dominar o som do mundo, Vangelis agora tem o universo em suas mãos.

Com teclados, elementos eletrônicos e uma sensibilidade ímpar, o mais recente trabalho de Vangelis joga por terra a artificialidade que vem dominando toda a esfera mais popular da música. Não se trata somente de ouvir música, mas de sentir e aprender com ela.

Rosetta insere sua música onde não há música, o espaço. E ainda assim Vangelis conseguiu lhe dar uma trilha sonora. Passado, presente e futuro, realidade e ficção, nada desse mundo não foi o bastante. Chegou a hora do lendário artista grego de conquistar o universo.

A música passa por aqui.

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