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Legalizet It e a luta de Peter Tosh

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Mais de quatro décadas após seu lançamento e tema de uma turnê que tem como responsável o filho do lendário Peter Tosh, o álbum Legalize It mostra o por quê de ser relevante em questões muito mais amplas que a legalização da maconha.

Existem coisas que não mudam no mundo da música. Ainda que o passar dos anos e os costumes passem por um processo de mudança, certas coisas sempre chamam a atenção.

Uma delas é a reação do público frente à capa do clássico supremo de Peter Tosh, Legalize It, disco lançado há mais de quatro décadas e que até hoje consegue levantar discussões em qualquer roda de amigos que estejam se referindo ao disco.

Primeiro registro da carreira solo de Peter Tosh, Legalize It carrega na sua faixa-título a frase que até hoje repercute aos quatro cantos do planeta, mas que foi dita pela primeira vez diante de um cenário muito mais complexo que agora.

País que passou por momentos turbulentos em virtude dos muitos anos colonialismo, a Jamaica da década de 70 vivia um de seus mais sombrios períodos em meio a um estado de violência endêmica que derrubou de forma vertiginosa uma das maiores fontes de renda do país, o turismo. Independente há pouco mais de uma década, o país era liderado naquele momento por Michael Norman Manley, filho do fundador do Partido Nacional Popular da Jamaica, Norman Manley, e ainda buscava sua identidade diante a tantas influências e um período de ebulição cultural.

E observando livros de história fica nítido perceber que a Jamaica talvez seja o país que mais viveu choques culturais na história. E só compreendendo isso é possível entender o contexto que envolve o clássico álbum de Peter Tosh.

Seja a chegada de escravos africanos à ilha da América Central no período colonial, a influência britânica pós-independência, a aproximação de Cuba e dos russos no período da Guerra Fria, tudo moldou de alguma forma a personalidade de um povo que cantou o amor e a revolução em forma de música.

Paralelo a isso, a Jamaica também foi o berço do movimento rastafári, que teve suas fundações apenas quatro décadas antes do lançamento de trabalhos considerados seminais para o reggae e que foram de encontro ao direito de seus seguidores fazerem uso da Cannabis, ou na linguagem popular, a maconha, em seus rituais. E embora a cultura do reggae indique explicitamente a sua relação com a maconha, ela só foi legalizada na Jamaica em 2015, quando o parlamento autorizou a propriedade de até 57 gramas e cultivo de até cinco plantas por pessoa na ilha caribenha. Antes disso obviamente não era uma tarefa difícil conseguir a erva nas ruas de Kingston ou Montego Bay, mas a apreensão sempre se mostrou uma dor de cabeça, especialmente para turistas mais desinformados.

Mas voltando ao passado, depois de Bob Marley estampar a capa do álbum Catch Fire em 1972 e ver a arte do disco censurada em diversos países por mostrar o cantor com um grande baseado na boca, o discurso em prol da liberação da maconha cresceu de forma considerável na ilha. Some a isso o fato do maior ícone do gênero abraçar a causa no momento em que o reggae invadia o continente europeu e despertava a atenção de todas as vertentes musicais.

Ainda bastante ligado ao Wailers, Peter Tosh reuniu para a gravação de seu primeiro disco nomes com quem já tinha afinidade, caso dos guitarristas Al Anderson e Aston Barrett, que até hoje seguem na ativa com suas respectivas formações da banda, além de Rita Marley e Bunny Wailer, que participaram das sessões de gravação como backing vocal. Gravado em 1975, Legalize It teve total direção de Peter Tosh e a mensagem bem clara desde a arte da capa, estampada com o músico em meio a uma plantação de maconha com o título nítido para quem quisesse ver.

Obviamente a proibição de Legalize It nas rádios em circuito internacional foi espontânea, mas não impediu seu sucesso. Lançada como single em 1975, a faixa chegou aos quatro cantos do mundo puxando o álbum um ano depois para o topo das paradas de diversos países. Carregado de letras fortes, o que inclui expressões só encontradas dentro da cultura rastafári, como em Igziabeher, Legalize It nasceu politizado e consistente o suficiente para rivalizar com o boom do punk inglês e o surgimento de nomes como Sex Pistols na década de 70. E Peter Tosh sabia muito bem o que queria.

Faixas como No Sympathy, regravada por Eric Clapton no álbum Old Sock, e Burial são algumas das nove que compõem o disco que mostram o quanto Peter estava sintonizado a tudo que o cercava, e isso não dizia respeito somente à legalização da maconha. Questões sociais, a repressão política e a liberdade de expressão permeiam um disco curto, mas que deu destaque para toda a realidade da Jamaica naquele momento.

Sucesso na época, abriu de vez as portas da carreira solo de Peter, que mais tarde emplacaria uma porção de clássicos, caso da regravação de Johnny B. Good, de Chuck Berry, já na década de 80. Em 2011 o álbum ganhou uma edição tripla que apresentou algumas das versões demo de faixas que deram forma a Legalize It. Remixes também foram incluídos enquanto a questão da legalização da maconha vinha se tornando cada vez mais representativa na Jamaica.

Hoje, mais de quatro décadas depois de seu lançamento, Legalize It surge novamente em destaque como tema da turnê realizada pelo filho de Peter, Andrew Tosh, que vem excursionando pelo mundo e tem o Brasil na rota.

Disco seminal da história da música, Legalize It levantou a bandeira de uma questão delicada e que até hoje tem reflexos nos mais diversos países do globo. Diante disso fica a pergunta: é possível imaginar algum outro disco na atualidade que tenha tal consistência em levantar uma bandeira a ponto do que foi a obra seminal de Peter Tosh?

A música passa por aqui.

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