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Eminem e Mike Skinner: O hip hop branco para entretenimento

Por que The Eminem Show, terceiro álbum do rapper americano Eminem, e Original Pirate Material, estreia do inglês Mike Skinner, o The Streets, abriram espaço para um novo momento no hip hop, abandonando de vez o underground e abraçando o entretenimento?

Não é preciso ser gênio para perceber. Poucos movimentos se tornaram tão emergentes ao longo das três décadas como o hip hop. Do som do subúrbio repleto de engajamento e críticas sociais à vertente que encabeça festivais pop e exalta um lifestyle repleto de conquistas pessoais (materiais), houve um caminho grande a ser percorrido, mas onde foi que a vertente mais influente do século XXI virou a chavinha para se tornar música de festa e ganhar de vez o ambiente pop? Lançados há duas décadas em um espaço de apenas três meses, dois discos podem explicar isso: The Eminem Show e Original Pirate Material, respectivamente lançados por dois rappers brancos, Eminem e Mike Skinner, o The Streets.

Mais que a sonoridade, que reflete bem os motivos que levaram Eminem e Mike Skinner ao protagonismo do gênero em seus países, o que faz desses lançamentos o gatilho para um movimento novo está nas composições. De repente, o hip hop não precisava mais lutar por algo tão grande, mas olhar para dentro e lidar com de seus próprios fantasmas e conquistas pessoais. Forjados à base de um “sincericídio” quase irresponsável, The Eminem Show e Original Pirate Material atingem outra classe e, de repente, passam a contar histórias dentro de uma linguagem mais corriqueira de ambos os públicos. A receita perfeita para o sucesso.

Comecemos com Mike Skinner. Inglês, branco, o rapper foi basicamente responsável por fazer com que o hip hop rivalizasse com o rock nos charts ingleses, justamente por fazer uso da filosofia do “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

Diferente da cena americana, o hip hop inglês só teve destaque quando passou a ser aceito dentro da cena (indie) rock, o que acabou dando forma à vertente que o mundo conheceu como Grime, com elementos de música eletrônica e através de vertentes como dubstep, jungle e o ragga. É como se o buraco deixado desde o sucesso de Malcon McLaren, nos anos 80, fosse preenchido só agora, mas com a linguagem de Mike Skinner.

Em suas letras, Mike Skinner fala sobre seu cotidiano e isso nem sempre envolve atritos. Muito pelo contrário. Com letras que passam até mesmo uma ideia de auto-ajuda e até sua relação com videogames, o The Streets canta uma realidade muito menos conflitante que aquela que aprendemos a crescer vendo o rap brasileiro, por exemplo. Não é todo dia que uma frase como “Acalme-se, companheiro / Se você começar a pensar que está nesse estado, você definitivamente estará nesse estado”, de Too Much Brandy, se torna referência para uma geração.

Já Eminem, que sempre teve um comportamento mais agressivo, não o faz diferente em The Eminem Show, que teve seu título inspirado justamente no filme O Show de Truman, de Peter Weir. Já conhecido mundialmente com o lançamento de The Marshall Mathers LP, um disco poderoso e que mergulha no pesadíssimo submundo de crimes e drogas que foi sua vida até aquele momento, o rapper americano passa a olhar para dentro, transformando seu disco em um retrato de seus fantasmas. Tudo de forma ácida.

Com videoclipes que mais beiram uma esquete de comédia, caso de Business, onde contracena com Dr. Dre como Batman & Robin, o que acontece em The Eminem Show é resultado da mente caótica de Eminem, que de certa forma o aproximou da classe média em um disco que cada faixa era reconhecida com menos de 5 segundos. Um sucesso, óbvio. Com Grammy, premiações a torto e a direito, o “Show de Truman” da vida Eminem também o tornou um artista socialmente aceito no mainstream por outros grandes nomes (do rock e do pop), condição validada justamente pela ligação que estabeleceu através de rimas rápidas com seu público.

O que faz de 2002 um ano especial com esses dois álbuns é justamente a condição pelo qual foram aceitos. Nenhum deles luta contra causas específicas. Ainda que sirvam de pano de fundo em algum momento, The Eminem Show e Original Pirate Material se conectaram ao íntimo de seu público, restabelecendo um novo caminho para o hip hop, agora com realidades bem diferentes, mas dentro da mesma estrada. Não à toa, Dr. Dre segue até hoje com seu pupilo ao seu lado, assim como tantos outros derivados desse ideal um pouco mais “egoísta” de se fazer hip hop. Já Skinner, é idolatrado no Reino Unido tal qual um rockstar, forma que o leva ao palco de grandes festivais… de rock.

Não era só hip hop, mas uma música que se conecta a um novo público, essencialmente branco. E na maioria das vezes não era necessário lutar por algo tão grande, mas se conectar com letras que podem dizer tudo, sobre outros, sobre elas mesmas, ou sobre ninguém, mas que sirvam de um rápido entretenimento.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.