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Os 61 anos de Apache, do The Shadows

Em tempos onde a pauta de apropriação cultural surge aos quatro cantos, o mundo da música relembra o estrondoso sucesso de Apache, faixa gravada pelo seminal grupo The Shadows e que serviu de base para um incontável número de clássicos nas décadas seguintes.

De acordo com a Q Magazine, Apache, faixa imortalizada pelas cordas do lendário grupo inglês The Shadows, faz parte de uma seleta lista com as 100 maiores faixas instrumentais da história. Exagero? Certamente não, afinal, estamos falando de uma música que vai muito além do que se ouve e que acabou servindo de referência para as mais diversas gerações e que completa pouco mais de seis décadas de existência nesse 2021.

omposta originalmente por Jerry Lordan, um gigante desconhecido das seis cordas. A faixa em questão foi mais um sucesso do compositor, que foi responsável por outros clássicos instrumentais, como a lindíssima Wonderful Land, balada que ganhou milhares de versões. Porém, o mais interessante certamente é o fato de que Apache nasceu na Inglaterra e não nos Estados Unidos, como o próprio nome sugere. Inspirada nos povos nativos dos Estados Unidos, a música ganhou forma na virada dos anos 60, período ainda pré-Beatles, para se ter ideia.

Inicialmente gravada por Bert Weedon, a versão não agradou Lordan, que imaginava um andamento diferente para a música. Foi quando Cliff Richards, Hank Marvin e Joe Brown, algumas das mentes por trás do The Shadows, receberam a missão de dar forma à faixa. E assim a magia aconteceu.

Mais do que um simples conjunto instrumental, o The Shadows contava em sua estrutura com artistas apaixonados por timbres e ritmos, o que acabou sendo fundamental na versão “encorpada” que a música ganhou. Gravada nos estúdios – sagrados – de Abbey Road, que mais tarde seria imortalizado na obra dos Beatles, Apache abandonou aquela ideia eletro-acústica para ganhar novos timbres e uma atmosfera única, inspirada diretamente nos povos nativos americanos.

Não eram só as notas escritas por Jerry Lordan, mas uma verdadeira trilha sonora inspirada nas tribos que povoaram as regiões central e sudoeste dos Estados Unidos perto do ano 850. Amparado por um Tanggu (uma espécie de caixa de bateria chinesa), Tony Meehan and Cliff Richard deram à música a atmosfera necessária para ganhar força em sua introdução. E abusando dos timbres, algo até então ignorado até pelo próprio compositor da faixa, a história foi feita.

Ironicamente, Apache não foi sucesso nos Estados Unidos. Nem de longe pra falar a verdade. Pensar nisso hoje seria algo perto do absurdo, dada a atmosfera construída para a música. Ao dominar as paradas inglesas no ano de seu lançamento, no início de 1960, o clássico do The Shadows rompeu a fronteira do Reino Unido e teve destaque em países como a África do Sul e Nova Zelândia, além de Austrália e Itália, que por sua vez já desenhava uma tradição em filmes de faroeste, o famoso Spaghetti western ou “bang-bang à italiana”. Tudo, de alguma forma, casava. A bolha norte-americana só seria furada no fim do ano, com uma versão bem mais simples da música, lançada por Jørgen Ingmann, um guitarrista dinamarquês que chegou a vencer o Eurovision, reconhecido prêmio europeu de música pop, em 1963.

Com pelo menos três versões diferentes, Apache atravessou os anos 60 sem muito mais destaque, especialmente no Reino Unido. Ainda que o The Shadows fosse uma referência, a música inglesa vivia o auge de seu movimento musical e só nos anos 70 que o single acabaria repaginado de forma definitiva para escrever seu nome na história.

Integrante da Incredible Bongo Band, grupo de funk e soul que ascendeu no início dos anos 70, Michael Viner teve a ideia de fazer uma versão explosiva da música, que deixava para trás praticamente tudo o que se pensava dela, pronta para incendiar qualquer pista de dança, que se materializava na forma da disco music daquele momento.

A versão da Incredible Bongo Band praticamente revolucionou Apache naquele momento. Sampleada à exaustão, acaba música acabou passando pela mão de tantos artistas que seria impossível escrever em um único texto. Destaque para a versão da The Sugarhill Gang, já nos anos 80. Outro rapper, dessa vez Grandmaster Flash, foi outro que fez uso dessa base. E também Vanilla Ice, Beastie Boys, MC Hammer e tantos outros. Até mesmo Madonna faria uso dos bongôs em Into the Groove. Para se ter ideia de longevidade dos arranjos e percussões de Apache, Rage Against the Machine e Jay-Z foram outros que chegaram a fazer uso de seu material, quase 40 anos depois do lançamento da versão original.

Na última década, durante um tributo a Les Paul, que acabou originando um DVD fabuloso cheio de ícones da guitarra, Jeff Beck também prestou tributo ao criador do modelo do instrumento mais usado no mundo com Apache, afinal, foi através desse instrumento que o The Shadows atingiu o timbre que acabaria sendo imortalizanda. Some a isso trilhas sonoras, comerciais, versões que se perdem no horizonte e o hit de Jerry Lordan, falecido nos anos 90, que sua melodia acabaria se tornando uma das mais lembradas do mundo da música, um clássico absoluto inspirado pelas tribos indígenas americanas.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.