Sala Especial

A explosão de Trombone Shorty

Ao pensar em um vulcão, a primeira cena que vem à cabeça de qualquer pessoa é na tradicional imagem onde a lava é expulsa do núcleo da Terra de forma intensa e proporcionando um verdadeiro espetáculo da natureza, deixando para trás aqueles pequenos tremores que antecederam tal fato e se tornando uma bola de energia que aos poucos se mostra incontrolável.

No caso da música é possível fazer essa analogia com um seleto grupo de artistas que parecem carregar dentro de si uma espécie de vulcão, uma paixão e intensidade capaz de transformar energia em melodia e transformar qualquer ambiente no lugar mais quente do mundo, caso de Troy Andrews, ou para os íntimos apenas Trombone Shorty.

Nascido em New Orleans, um dos maiores celeiros musicais do planeta, Troy só se tranformou em Trombone Shorty bem depois de ver sua carreira acontecer profissionalmente. Apaixonado pelo instrumento que mais tarde seria a inspiração de seu nome artístico, o jovem de New Orleans teve seu primeiro contato com a música aos seis anos, quando já integrava diversas brass bands (grupos normalmente formados por inúmeros instrumentos de sopro e percussão) da mítica cidade americana, começando a ganhar um status cada vez maior quando integrou seu primeiro grande grupo, a Stooges Brass Band, formada durante a metade da década de 90 e em atividade até hoje. Na época em que integrou o grupo, Troy tinha apenas 16 anos e ainda assim conseguiu chamar a atenção da Red Hot Records, com quem lançou seu primeiro álbum em 2002, Trombone Shorty’s Swingin’ Gate, mesmo peíodo em que adotou de forma definitiva seu nome artístico.

A história com a Stooges Brass Band chegou a ganhar mais um capítulo com o lançamento do álbum It’s About Time, em 2003, mas a carreira de Trombone Shorty embalaria de vez nos dois anos seguintes, ainda antes de formar sua própria banda. Ainda como Troy Andrews, o trombonista chegou a lançar em 2004 o álbum The End of the Beginning, despertando a atenção daquele que acabaria sendo responsável por sua ascensão definitiva no mundo da música: Lenny Kravitz.

Agora como integrante da banda que acompanhava Lenny, o trombonista de New Orleans teve a chance de excursionar com o guitarrista abrindo shows para o Aerosmith e deixando a melhor das impressões, lançando em 2005 o álbum Orleans & Claiborne, dessa vez ao lado da Orleans Avenue, que se tornaria sua banda de apoio na década seguinte.

Alternando turnês como atração de abertura e conquistando cada vez mais o respaldo do público, Trombone Shorty se afastou timidamente do mainstream até o fim da década, retornando em 2010 com Backatown, disco que lhe rendeu um Grammy como Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo e apresentou ao mundo sua mistura de funk, jazz e soul. Essa feliz combinação foi definitiva para passar a inserí-lo como headliner de vários festivais pelo mundo graças ao ímpeto explosivo de suas apresentações. Chegava a hora do vulcão de New Orleans se mostrar de forma definitiva para o mundo.

Excursionando novamente como artista solo, Trombone Shorty lançou em 2011 outro trabalho que serviria para inserí-lo como um dos artistas mais expressivos da década, com For True, quando atingiu o topo da parada da Billboard de lançamentos do gênero. Com parcerias de peso como a dos guitarristas Jeff Beck e Warren Haynes, Trombone Shorty se tornava um bandleader nato, capaz de coordenar grandes estrelas da música e levar seu talento além das margens dos palcos, quando fundou a The Trombone Shorty Foundation, um projeto criado em parceria com a prefeitura de New Orleans para ensinar nas escolas o instrumento que o consagrou.

Vieram turnês pelo mundo e o reconhecimento de personalidades do mundo da música e da política, como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que não por acaso teve a oportunidade de conferí-lo ao vivo na Casa Branca ao lado de nomes como Keb’mo e Shemekia Copeland.

Com seu último álbum, Say That to Say This, Trombone Shorty também passou a fazer parte da história do Brasil, por onde já realizou duas turnês e vem sendo lembrado pelo público como um dos nomes mais explosivos da atualidade. Se por um lado o jazz se tornou apenas uma lembrança na sua sonoridade, o funk e o rock parecem cada vez mais ganhar força em seu repertório, que transita por versões de clássicos de Hendrix e faixas mais clássicas de sua extensa discografia.

Hoje com 28 anos, Troy “Trombone Shorty” Andrews vive o melhor momento de sua carreira e vem alcançando destaque também como vocalista, elemento que se tornou mais habitual em seu repertório, cada vez mais diversificado nos últimos anos. Ainda atuante em brass bands, o trombonista se divide entre sua carreira solo e projetos que parecem enriquecer ainda mais sua música, hoje mais acessível e dotada de cada vez mais elementos do funk setentista eternizado por nomes como Fred Wesley.

Acumulando cada vez mais experiência, Trombone Shorty é um vulcão que nasceu na cidade de New Orleans e que se torna cada vez mais completo e impressionante ao lado de seu instrumento, mas cujo único objetivo passa longe da violência com que tal força da natureza é lembrada. Troy Andrews quer fazer o mundo dançar e a cada novo lançamento e turnê fica mais nítido que seu auge ainda está distante, uma realidade onde todos ganham, seja o público ou o artista, mas que principalmente agrega mais um capítulo brilhante à história de New Orleans.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.