Sala Especial

Addictive TV e a música que você vê

É possível imaginar o sucesso do Daft Punk sem a imagem dos robôs a frente de seus dois integrantes, Guy-Manuel de Homem-Christo e o Thomas Bangalter? Ou então pensar no Chemical Brothers sem seus videoclipes? Ou indo mais além, seria possível pensar na performance de qualquer grande DJ hoje sem uma estrutura que caminhe ao seu lado durante suas apresentações?

Não é novidade que a música eletrônica tenha se tornado mais visual e esteja se tornando multimídia em sua natureza, uma tendência iniciada ainda na década de 90 e que a cada dia ganha novos contornos com o avanço da tecnologia. Mas até onde esse conceito pode proporcionar algo original o suficiente para se tornar único na produção da música eletrônica? No caso da dupla Addictive TV é difícil mensurar onde começa ou termina o conceito multimídia idealizado há mais de duas décadas. Esbanjando criatividade, os ingleses parecem não encontrar limites diante da gama de possibilidades apresentadas em seus projetos.

Mas para compreender a obra do Addictive TV é necessário dar um salto ao passado e ter a percepção de que tudo (exatamente tudo!) é música. Seja o vento, o chute em uma bola de futebol ou o choque entre duas espadas, tudo o que é colocado em uma sequência exata pode ser transformado em uma música harmoniosa e, no caso da dupla, dançante.

E esse projeto teve início enquanto a indústria fonográfica ainda começava a lidar com a decadência da house music americana no início da década de 90 e via novos nomes nascerem por toda Europa, principalmente em Londres e Berlim, berços de movimentos de referência para o gênero. Vertentes como o drum and bass e o breakbeat plantavam a semente de uma geração dourada enquanto clubs passavam a explorar novos conceitos que agregassem conteúdo a esse novo público consumidor e dando espaço para uma geração que seria conhecida nos anos seguintes como VJs (abreviação de video jockey). Foi desse novo conceito que nasceu o Addictive TV.

Formado por Graham Daniels e Mark Vidler, o Addictive TV talvez seja o nome que mais sintetize esse encontro entre a música e o vídeo ao longo de toda sua história. Trata-se de artistas que conseguiram realizar a montagem de um complexo quebra-cabeça que pode ser definido como “a música que você vê!”.

Esse mergulho no processo de composição do Addictive TV não se limita somente ao universo da música, mas em um turbilhão de imagens que combinam elementos sequenciados para a construção de sua obra. São cenas de filmes, desenhos animados, solos de guitarra, partidas de futebol, mudanças climáticas e qualquer ruído que, após montado, se transforma em uma composição capaz de contagiar qualquer pista de dança do planeta. E tudo isso sendo montado ao vivo, como um quebra-cabeças ganhando forma e criando uma paisagem sonora improvável em seu início.

Elogiado em clubs ou galerias de arte, o Addictive TV hoje conseguiu conquistar mídia e público na Europa e nos Estados Unidos com um processo de desconstrução e reconstrução em tempo real, que foi descrito por veículos conceituados como o The Times, dos Estados Unidos, como um “espetáculo capaz de confundir seu cérebro”. Esse know-how os tornou responsáveis por montagens relacionadas à diversas marcas e proporcionou à dupla levar suas duas maiores paixões para o mesmo ambiente, abrindo um leque de possibilidades para projetos futuros.

E a ligação do Addictive TV com o Brasil também é bastante íntima na última década, quando se apresentou em Brasília e nos festivais Motomix e Skol Beats, onde teve seu conceito visual reforçado por uma grande estrutura e saiu do evento como uma das melhores apresentações realizadas.

Atualmente o Addictive TV vem trabalhando em um projeto intitulado como Orchestra of Samples, que tem um conceito similar a algo como “música + música = música”. Ao longo de meses dupla realizou a gravação de diversos artistas anônimos ao redor do globo para transformar as mais diferentes culturas musicais em uma sonoridade universal, que parece conversar entre si e ganha forma em questão de segundos.

Abaixo é possível conferir o teaser disponibilizado pela dupla referente ao projeto Orchestra of Samples:

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No Brasil novamente e com apresentações agendadas para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a dupla é uma das principais atrações do Rio Music Conference, evento que trará ao país alguns dos maiores produtores do planeta para discutir os rumos da música eletrônica, um processo do qual o Addictive TV é peça fundamental e que tem tudo para apresentar o próximo passo de um dos gêneros mais populares do planeta.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.