Sala Especial

As mil faces de Joe Bonamassa

Existe um velho provérbio português que diz “Não se pode abraçar o mundo com as duas mãos". Embora a afirmação seja bastante verdadeira, ela não se aplica ao músico inglês Joe Bonamassa, provavelmente um dos maiores nomes da guitarra contemporânea e dono de uma extensa discografia, mesmo tendo iniciado sua carreira solo efetivamente há pouco mais de uma década.

Influenciado por nomes como Rory Gallagher e Steve Ray Vaughan e acostumado a lidar com músicos do primeiro escalão da música mundial, Joe Bonamassa também cultiva a desconfiança do público mais conservador quanto ao merecimento (ou não) de tamanho respaldo, principalmente dentro de sua principal vertente, o blues.

Já alçado ao panteão do gênero, onde compõe e lança trabalhos com a mesma facilidade com que respira, o guitarrista inglês lançou clássicos do blues contemporâneo como Blues Deluxe (2003) e Sloe Gin (2007), além de realizar inúmeras parcerias bastante elogiadas. Um bom exemplo pode ser encontrado no álbum Don’t Explain (2011), gravado ao lado da vocalista Beth Hart em clima de disco-tributo à diva da soul music Etta James, o que proporcionou uma nova abertura em sua carreira, ainda que o risco de perder o caminho de volta para sua zona de conforto passasse a assombrá-lo cada vez mais.

Sempre disposto a novos desafios, Bonamassa se dedicou durante os últimos anos ao Black Country Communion, supergrupo formado ao lado do baixista Glenn Hughes, o tecladista Derek Sherinian e o baterista Jason Bonham, por onde lançou três álbuns de estúdio, além de um registro ao vivo, tornando-se um dos mais bem-sucedidos projetos dos últimos tempos.

Afastado de sua zona de conforto novamente, Joe Bonamassa não apresentou nenhuma insegurança ao caminhar por uma sonoridade que o distanciava do blues mais tradicional e se aproximava muito mais do hard rock, além da necessidade em dividir os holofotes, modificiar seu visual e passar a lidar com outros grandes nomes da música mundial.

O resultado, como não era de surpreender, foi bastante positivo e a performance do guitarrista acabou se tornando o maior destaque do projeto, que encerrou as atividades em 2012, após quatro anos de existência, de forma tumultuada devido a problemas de relacionamento com o baixista/vocalista Glenn Hughes. Nos meses mais turbulentos houve uma verdadeira lavagem de roupa suja através das redes sociais, implodindo de vez o grupo, que por sua vez chegou a alardear na mídia uma (im)possível entrada de Jimmy Page no projeto, algo que só comprovou o tamanho da parcela de contribuição de Bonamassa. O motivo de tal desavença, obviamente, foi a falta de tempo do guitarrista em se dedicar ao projeto.

Sem olhar para trás para lamentar o fim do Black Country Communion, o guitarrista tocou sua vida e já no início 2013 anunciou a criação de mais um supergrupo, o Rock Candy Funk Party, projeto dedicado a extrair o melhor do funk da década de 60/70. No line up, nomes como o guitarrista Ron DeJesus, o baixista Mike Merritt, o tecladista brasileiro Renato Neto e o baterista Tal Bergman, músicos desconhecidos do grande público, mas com uma experiência que os liga a nomes como Prince, Joe Zawinul (Weather Report) e Rod Stewart, resultando em um time que não precisou de tempo para se entrosar e rapidamente lançou seu primeiro álbum, o ótimo We Want Groove.

Projeto realizado em mares nunca navegados, We Want Groove passa longe da zona de conforto e traz em pouco menos de dez faixas instrumentais uma dose carregada de técnica e feeling. Tudo isso à medida em que a guitarra de Bonamassa surge novamente como protagonista de uma sonoridade imortalizada por verdadeiras lendas da década de 60 e 70, uma geração catapultada ao mainstream através de gravadoras como Motown e Stax.

Joe Bonamassa insistiu em definir seu novo projeto como uma jam entre amigos apaixonados por fusion. Sim, o fusion jazz de John McLaughlin e Weather Report, mas isso pouco aparece em parte do repertório de We Want Groove, que impressiona pela facilidade com que grandes melodias são desenhadas no mais alto nível, caso de faixas como Dope On a Rope e Octopus-e, entre outras. O flerte mais natural com o gênero acontece em momentos pontuais do disco, principalmente quando Joe Bonamassa parece evocar a fase do guitarrista inglês Jeff Beck produzida por George Martin, destacando-o como uma de suas principais influências. O reflexo disso pode ser conferido na extensa The Best Ten Minutes of Your Life e na grooveada Root Down (And Get It), alguns dos muitos bons momentos do álbum, digno do seminal Blow by Blow, lançado por Jeff Beck há quase quatro décadas.

E se engana quem pensa que a carreira de Bonamassa em 2013 passou a se limitar ao Rock Candy Funk Party. Em paralelo à divulgação de We Want Groove o guitarrista aproveitou para retomar sua carreira solo e disponibilizou no último mês o ousado An Acoustic Evening at the Vienna Opera House, disco duplo gravado na Suíça durante a turnê de seu último álbum solo, lançado um ano antes. No repertório de mais de vinte faixas, clássicos de sua carreira solo e algumas faixas mais recentes como Dust Bowl e Driving Towards the Daylight repaginadas em formato acústico e que dão título aos seus dois últimos trabalhos de estúdio.

Com mais uma grande página escrita na carreira, fica difícil imaginar qual o caminho que Bonamassa seguirá nos próximos meses e já não soa como exagero pensar que essa situação chega a ser temerosa, principalmente pelo caminho que o afasta do blues mais tradicional e responsável por sua consagração. Ainda que o nível de qualquer trabalho realizado acarrete uma verdadeira avalanche de elogios, cada vez mais a benção de ter nascido com um talento tão grande liberta uma nova face de Joe Bonamassa e inspira a lenda do “toque de midas”, transformando tudo em que toca em ouro.

Mas afinal, qual o limite de tanta criatividade? Até onde tamanha ousadia poderá manter o guitarrista no panteão dos grandes músicos sem fazer com que sua identidade se confunda até mesmo para os fãs e admiradores mais antigos? Joe Bonamassa quer abraçar o mundo da música e até o momento não encontrou a menor dificuldade para realizar essa façanha. E a cada grande projeto realizado, não existe a menor dúvida da satisfação do público, ao menos até onde conseguir reconhecer a figura de seu ídolo.

A estrada do guitarrista inglês ainda é longe e os caminhos seguem se abrindo ainda mais, mas para aquele garoto que aos 12 anos arrancou elogios de nada menos que o mítico BB King, fica difícil imaginar que alguma delas leve-o para o lugar errado.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.