Lançamento

Resenha: João Donato e Jards Macalé – Síntese do Lance

Dois anos de hiato no mundo da música pode significar muita coisa, a maioria delas nada agradável. Movimentos interrompidos, artistas em ascensão empurrados para baixo do tapete, até mesmo a conexão com a música pode mudar. Quando pensamos que nossa realidade hoje é de uma busca por retomada, levar isso para o campo artístico é ainda mais complicado. Ainda assim, há frutos que devem ser celebrados. É o que acontece com Síntese do Lance, disco lançado em esquema de parceria por dois colossos da música brasileira, Jards Macalé e João Donato.

Gravado em 2020, o disco – que tem seu título inspirado em um ponto de macumba do Zé Pelintra – é muito mais que uma simples parceria. Transitando entre a MPB e a bossa-nova, vertentes por onde seus protagonistas fizeram história, Síntese do Lance é uma ode ao melhor da música brasileira com uma pitada de bom humor. Um projeto que junta duas pontas da história e que nesse momento serve para revitalizar nossa paixão pela música.

Com um “Q” de inocência, a parceria entre Donato e Macalé se consolida depois de superarmos um período (ainda mais) sombrio em nossas vidas. Temos vacina, uma luz no fim do túnel! Diante desse cenário, digerir cada uma de suas faixas é um processo ainda mais saboroso, que ignora um país que ainda é assolado por uma política de destruição e a possibilidade do surgimento de novas variantes da pandemia. E compor, produzir e executar isso com a serenidade de um dia de sol é algo que só artistas tão experientes poderiam fazer.

Em pouco mais de meia hora, é impossível não fechar os olhos em faixas como Açafrão e Ontem e Hoje, essa última evidenciando ainda mais o talento de Macalé como violonista. Aliás, há de se reforçar a capacidade da dupla seguir tão afiada em seus instrumentos. Esbanjando técnica, o disco é rico à medida que esbanja uma atmosfera tão intimista.

Com lançamento ao vivo (finalmente!) em São Paulo, foi possível mergulhar ainda mais fundo no significado de várias faixas do disco, o que engrandece ainda mais sua audição. Um abraço do João, de Macalé, é uma homenagem ao parceiro João Gilberto, criada a partir das lendas que cercam suas clássicas composições dentro de um banheiro. Cururu é outra que faz João Donato rir com uma criança por sua letra tão surreal. Definitivamente, não é só mais um disco.

Em um momento em que o futuro parece tão incerto, se deleitar com a arte é fugir um pouco do caos que domina nossas vidas. E qual seria esse, senão, o papel da arte? Não ouça para marcar território, ouça várias e várias vezes. Mais do que nunca precisamos disso para olhar para a frente.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.