Sala Especial

John Lennon às portas do inferno

Lançado postumamente como “Live in New York City”, um dos registros mais importantes da carreira solo do ex-Beatle completa meio século de história escondendo do público uma história que quase acabou com sua carreira logo após a saída do grupo inglês.

Qualquer coisa relacionada aos Beatles por si só já é histórica, seja ela um artefato ou um relançamento, mas quando se envolve algo em áudio ou vídeo, obviamente temos um momento onde qualquer exagero é permitido. Get Back, documentário de Peter Jackson, que o diga, afinal, foi o grande acontecimento musical de 2021. Essa histeria se reduziu com a carreira solo dos integrantes da banda, mas certos episódios marcam momentos de virada profundas em suas vidas, caso de John Lennon – Live in New York City, disco que praticamente colocou a vida do ex-Beatle às portas de um pesadelo diário de anos, quase capaz de encerrar de sua carreira, e que completa 50 anos em 2022.

Dá para achar em LP, em CD e, se bobear, até mesmo em DVD. Sem o refinamento dos atuais lançamentos e sem os hits que marcaram sua carreira, na banda e em carreira solo, o disco gravado no Madison Square Garden, em New York, marcou um período na carreira de John Lennon que se cruza com a campanha para presidente que teve Richard Nixon contra George McGovern, além do relacionamento com Yoko, que atravessou uma de suas fases mais conturbadas, envolvendo até mesmo uma traição e separação.

Gravado ao lado da Elephant´s Memory, banda recrutada por Lennon logo ao chegar em Nova York após a dissolução dos Beatles, o show foi a única apresentação ao vivo associada a uma jamais realizada tour do álbum Some Time in New York, que trazia na bagagem seu caráter contestador,  o que musicalmente já havia causado a ira da crítica especializada. Na época, ligado ao Movimento, grupo progressista que tinha na imagem do ex-Beatle a chance de mobilizar um grupo maior de pessoas, Lennon tinha como desejo realizar o máximo de shows gratuitos para transmitir uma mensagem de paz, mas havia quem não achasse essa ideia das melhores.

A presença do ex-Beatle na cidade apavorou todo o partido Republicano, que iniciou uma caçada implacável para deportar o músico dos Estados Unidos no início dos anos 70. Na ânsia para tirar Lennon de circulação, executou grampos telefônicos, iniciou uma perseguição silenciosa seguindo passo a passo o dia do ex-Beatle, além de uma pressão sobrenatural sobre Yoko, que se via dividida entre o sequestro de sua filha, Kyoko, pelo pai, Anthony Cox.

Essa e tantas outras histórias que desencadeadas a partir do registro ao vivo de Lennon podem ser conferidas em detalhes, alguns chocantes, no livro John Lennon em Nova York, publicado pelo jornalista James A. Mitchell e lançado no Brasil, mas o cenário até a gravação do disco já trazia peças que se tornariam fundamentais para entender a vida do artista inglês nos Estados Unidos. A primeira delas certamente a indisposição com Yoko, que fazia parte da banda, tanto da imprensa como da própria da Elephant´s Memory.

Live in New York City é o ponto mais alto de algo que poderia ter sido e não foi. Ouvir esse álbum sabendo disso muda praticamente tudo o que pensamos sobre John Lennon, especialmente musicalmente, já que a partir dessa gravação entendemos os rumos que sua carreira tomou até a obtenção do Green Card, em 76. Está nele o embrião de todo desencanto com a vida política e da separação de Yoko, que se refletiriam em Walls and Bridges (1974) e Rock ‘n’ Roll (1975). Mais que isso, no show registrado em Nova Iorque está pela primeira vez um artista que sabe estar diante de uma tempestade, o prenúncio da pior fase de sua vida. E isso se reflete no palco, especialmente nos bastidores. A certeza do fim do projeto já permeava a cabeça de Lennon, que logo dissolveria a banda, amigavelmente.

Esse segundo registro ao vivo de Lennon foi liberado ao público oito anos após sua morte, em 1980. E desde então sempre foi tratado como um lançamento menor, sem refino técnico e até mesmo descartável, já que toda sua discografia passou por um processo de masterização que abrilhantou ainda mais álbuns como Imagine (1971) e Mind Games (1973). Ainda assim, capta de forma única o desapego musical dos tempos da banda inglesa para um novo grupo, que poderia – e como poderia – ter tido sua relevância no mundo da música.

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Anderson Oliveira

Editor da Revista Som (www.revistasom.com.br) e do Passagem de Som, é formado em Publicidade e Propaganda com pós-graduação em Direção de Arte. Atualmente se aventura pela computação gráfica enquanto luta para completar sua coleção de Frank Zappa.